terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Capítulo IV - Começo


Era um dia nublado. As casas simples daquele local, unidas a grande quantidade de árvores e a estreita rua de terra, retratavam o que parecia ser o cenário da cidade W-1036 em algum tempo passado. As nuvens pesadas anunciavam a chuva que logo viria, e o vento forte e gélido trazia calafrios ao pequeno garoto. Tinha pouco mais que cinco anos, mas andava com segurança, e parecia bastante maduro, dentro daquele pequeno casaco de couro e das minúsculas botas negras. Tinha cabelos brancos, e a pele macia de criança parecia conter toda inocência do mundo, contrastando com os olhos completamente negros, que pareciam guardar a experiência e a dor de milhares de anos. Ele corria alegremente atrás de uma borboleta, próximo a um homem que andava calmamente no centro da rua, se desviando das poças lamacentas que surgiram graças às chuvas seguidas nos dias anteriores. Usava um sobretudo preto, e um chapéu em tonalidade igualmente escura escondia seu rosto nas sombras. Seu cabelo castanho estava mal lavado, as mãos estavam nos bolsos, e a cabeça voltada para o chão, aparentemente pensando em algo.
A criança, que corria despreocupada pela rua, conseguiu notar que havia algo de errado, mesmo com a pouca idade. Parou e olhou para a triste figura que vagava, aparentemente sem rumo. Correu em direção ao homem, se sujando ao pisar na lama. Puxou o tecido do sobretudo, chamando sua atenção, e pôde ver: um brilho iluminava os olhos do rapaz. Mas não por muito tempo, pois o mesmo rapidamente passou as mãos na face, limpando as lágrimas da visão do pequeno, que preocupado, não conseguia entender o que acontecia. Algo estava realmente errado.
- Papai, o que aconteceu? Onde estamos indo? – perguntou a voz fina e preocupada.
Um sorriso surgiu na expressão dura do homem, provavelmente tentando passar confiança ao filho. Não queria que ele ficasse preocupado. Porém não conseguiu manter a feição, e seu rosto novamente virou uma máscara da solidão.
- Está tudo bem, Dante. Papai já lhe disse antes de sairmos, estamos indo conversar com um velho amigo... – disse ele, a voz fria e cansada – quero que se comporte quando chegarmos, tudo bem?
A criança confirmou com a cabeça, mas continuou preocupada. Dante andou ao lado do pai durante mais algum tempo, agarrado à sua mão, quando finalmente pararam em frente a uma casa branca, com portas de madeira pintadas em azul e nenhuma janela. Ao se aproximarem, Dante percebeu que na maçaneta havia alguns desenhos estranhos. O pai bateu três vezes na porta, e logo ouviram passos ecoando dentro da casa. Com um rangido fraco a porta se abriu, e um homem estava parado, olhando-os com uma expressão interrogativa. Seus cabelos eram grisalhos e longos, e a barba estava feita. Usava um manto estranho, antiquado e azulado, com detalhes em verde e laranja.
- Desculpe o incômodo a essa hora da manhã, Gavea... – disse o homem.
- Ora... Que surpresa Nicolau! Entre, entre, irei servir chá para vocês, está fazendo frio... – disse o senhor com um sorriso no rosto.
- Obrigado... Preciso mesmo conversar com você...
Pai e filho entraram na casa. Dante estava novamente risonho, encantado com a decoração. Nicolau parecia já ter entrado lá antes, e não se importou muito com o ambiente estranho ao seu redor. Pelo contrário, havia um tom de urgência em seu olhar enquanto Gavea estava conduzindo-os para os sofás. A casa era enorme, apesar de parecer minúscula do lado de fora. As paredes internas também eram pintadas de branco, e nelas havia quadros e obras estranhas, que pareciam ter sido feitas pelo próprio ancião. No teto pendia uma grande luminária, e na sala havia dois sofás espaçosos de cor caramelo, junto a um belo tapete e uma lareira, onde o fogo dançava. Próxima a parede, havia uma mesa de madeira robusta, mas elegante, e ao lado de uma porta havia uma escadaria enorme que dava para o andar de cima.
- Sentem-se, sentem-se, irei preparar o chá e já volto... – disse Gavea, antes de sair para outro cômodo.
Dante estava entretido com a lareira, admirando o fogo e passando os dedos sobre as chamas. O pai parecia despreocupado com a segurança do menino, e apenas fixava os pés, sentado no sofá macio. Sobre uma mesinha a sua frente, havia algumas revistas com fotos de animais. O garoto olhou o pai. Medo. Era tudo que seus olhos refletiam para o filho. Aquilo o assustava. Nunca tinha visto Nicolau assustado daquela maneira.
Passado algum tempo, Gavea voltou à sala, com uma bandeja prateada nas mãos, que trazia três xícaras de chá quente. Ele tinha um sorriso no rosto, e dava passos rápidos apesar da idade avançada.
- Aqui está o chá de vocês... Espero não ter demorado! – disse o homem, enquanto servia os convidados – há... Você não sabe como eu estava ansioso por uma visita, ando muito entediado ultimamente... Já me cansei de pintar, esculpir, costurar... Ontem mesmo, passei o dia plantando samambaias na entrada da casa, estava me preparando para regá-las quando vocês chegaram... Acho que elas... – começou a dizer ele, quando notou o olhar apreensivo de Nicolau preso ao chão. Aprumou-se, e o sorriso no rosto foi substituído por uma expressão mista de curiosidade e preocupação – bem... Acho melhor deixar as novidades para depois. Diga-me, meu caro, o que veio fazer em minha casa tão cedo nesse dia nebuloso?
A figura triste sentada no sofá manteve o olhar cabisbaixo por alguns momentos, antes de levantar a cabeça para responder o senhor. Seu olhar mostrava determinação, apesar de tudo.
- Gavea, tenho um pedido... E só você pode me ajudar... – disse o homem, com a voz rouca pelo tempo extenso em que ficou calado.
- Hm... Bem, minhas visitas costumam quase sempre vir até aqui para me fazer pedidos... – disse o outro, com um sorriso discreto – bem, me diga o que deseja.
- É minha mulher...
- Letícia? Aconteceu algo...?
- Na verdade... Sim... Bem, acontece que... – Começou o homem, mas logo percebeu que Dante prestava atenção na conversa. O nome de sua mãe parecia ter despertado seu interesse. Nicolau não queria isso – Dante... Por que não vai brincar lá fora?
- Está frio papai... Não quero sair... – disse o garoto, fingindo que havia voltado a brincar com o fogo.
- Tudo bem Dante, eu tenho um quarto lá em cima cheio de brinquedos. Vamos lá que eu te mostro – disse o velho com um sorriso carinhoso, passando a mão na cabeça do menino e segurando em sua mão para levá-lo.
Subiram as escadas calmamente. Elas davam para um corredor com várias portas em cada parede. No final do mesmo, havia uma única porta solitária, que era adornada desenhos iguais da maçaneta da entrada da casa. Gavea conduziu Dante até a primeira porta, e abriu-a. Entraram em um quarto amplo e sem janelas, como toda a casa. Havia várias estantes, todas cheias de livros e brinquedos. Provavelmente eram relíquias guardadas pelo senhor durante muito tempo, mas ele não pareceu se preocupar em deixar o menino usar o que quisesse. Dante ficou surpreso e admirado com tudo aquilo, parecia não saber o que olhava primeiro.
- Gostou? Pode brincar com o que quiser... Você sabe ler?
- Sei sim! Papai me ensinou... – disse o menino, em tom inocente.
- Sabe? Bem, se quiser ler então, também pode pegar algum desses livros, tem todo tipo de história... Vou descer para terminar minha conversa com seu pai. Quando eu acabar, venho trazer alguns biscoitos para você, tudo bem?
- Sim! – respondeu o garoto com um sorriso no rosto – obrigado!
O ancião deu um sorriso e fechou a porta. Era raro encontrar crianças daquela idade tão educadas. Dante pôde ouvir os passos do homem descendo a escadaria. Apesar de ter aceitado ficar no quarto, ele não ia brincar nem ler. Queria ouvir a conversa. Queria entender o que havia de errado com sua mãe. Já fazia dias que ela estava trancada no quarto, e seu pai apenas dizia que ela estava doente.
Encostou o ouvido na porta, e pode ouvir que os homens haviam voltado a conversar no andar de baixo. Mas a porta era muito grossa, e só conseguia entender umas poucas palavras. Apesar de precoce, sua cabeça de criança tinha medo de abrir a porta para escutar melhor e acabar levando uma bronca. Mas havia alguns pontos da conversa em que falavam mais alto, e o menino pôde ouvir algumas palavras: “possessun”, “exorcismo” e “morte”. Ficou assustado. Não sabia o que significava possessun nem exorcismo, mas sabia exatamente o que significava morte. E estavam falando de sua mãe. Será que sua querida mãezinha iria morrer? Só podia se perguntar. Foi para um canto do quarto, e sentou-se abraçado aos joelhos, os olhos fixos no chão. Não queria brincar, não queria ler, nem ouvir, apenas esperar.
A angústia perdurou por alguns minutos, e então ele pôde ouvir claramente a voz de seu pai gritando no andar de baixo. Ouviu passadas fortes subindo as escadas, e a porta se abriu com violência. Nicolau estava arfando.
- Vem filho, vamos embora – disse ele, em um tom brusco, a respiração alta.
- Não vai ter biscoito? – perguntou o pequeno, calmo e inocente.
- Dante, vem logo! Está na hora de ir embora!
O pai estava nervoso. O garoto se levantou e foi em direção ao homem, que segurou sua mão, e levantou-o, segurando o pequeno em seu colo. Desceu a escadaria em passos rápidos. Gavea estava esperando na porta.
- Nicolau! Fique um pouco mais, você tem que esfriar a cabeça...
- Não quero esfriar nada! Se não pode me ajudar, me esqueça, não tente me atrapalhar! Vou fazer o necessário! – disse o homem, os olhos brilhando, talvez por estar segurando a vontade de chorar, talvez por raiva.
O pai saiu da casa, carregando o filho no colo, sem olhar para traz. Começava a chover agora, e as gotas finas batiam em seu rosto. O senhor saiu da casa, e ficou parado, olhando os dois se afastarem.
- Nicolau! É a única forma!
- Eu não vou matá-la! – disse o homem, parando abruptamente. Soluçava, e em seus olhos, as lagrimas escorriam.

Era uma noite chuvosa, o céu parecia coberto por um manto de nuvens. Dante estava sentado na soleira de sua casa, um casebre de madeira, abraçado aos joelhos. Fazia um frio intenso, e a casa, afastada da cidade, ficava em campo aberto, fazendo o vento se tornar ainda mais gélido. Haviam se passado alguns dias desde o evento na casa de Gavea, e o menino sentia o coração pesado. Riscava a terra do lado de fora com um graveto na mão, enquanto olhava o pai.
Nicolau cavava um buraco fundo no quintal da casa com uma pá enferrujada. Seus cabelos estavam molhados pela chuva intensa que caia com força sobre ele. A água escorria pelo seu rosto contorcido pela dor. Dante não sabia se aquela expressão era por causa do frio que gelava seus ossos, pela água da chuva batendo como pedradas em suas costas, ou pelo que havia acontecido. Também não conseguia saber se parte daquela água que escorria em seu rosto, no meio da água da chuva, poderiam ser lágrimas. O homem parou de cavar, e descansou, apoiando os braços sobre a pá. Sua roupa estava encharcada pela água e sua camisa ainda estava com uma grande mancha de sangue na altura do peito. Naquela região, o tecido estava rasgado, e mesmo na escuridão da noite, podia-se ver um corte enorme. O sangue escorria, mas ele parecia não ligar. Olhou para o saco de lixo que estava ao lado do buraco que havia acabado de cavar. Não tinha lixo algum lá dentro, estava apenas cobrindo algo. Dante sabia o que havia lá, mas não conseguia entender, e muito menos aceitar. Continuou abraçando seus joelhos.
Durante muito tempo o pai continuou imóvel, até finalmente criar forças para ir em direção ao saco. Tentou levantá-lo, mas se desequilibrou e escorregou na água do chão, e acabou por cair na lama, levando o plástico preto consigo, destampando o que estava embaixo dele. Então Dante pôde ver novamente.
O corpo de sua mãe deitado na lama, sendo fuzilado pela chuva. Estava nua, e sobre sua barriga estavam desenhadas uma série de formas que ele não entendia, feitas com o que parecia ser sangue. Seus olhos estavam arregalados, e em sua boca havia um sorriso estranhamente simpático, como se estivesse viva. Porém o falta de brilho nos seus olhos e a palidez de sua pele mostravam a realidade aterradora: estava morta já fazia algum tempo. Ainda assim, estranhamente, os olhos arregalados estavam olhando diretamente para Dante, sentado na soleira da casa, e aquele sorriso perturbador parecia querer reconfortá-lo. A criança sentiu um aperto no peito, e sua barriga gelou. Queria abraçar o corpo da mãe. Mas também queria fugir dele. Estava com medo, medo do que aquilo poderia representar. Uma única lágrima correu por seu rosto. No chão, desenhado na terra seca protegida pelo telhado, havia um boneco segurando um coração partido ao meio. Seu pai gritava, chorando. Solidão.

Dor. Dante acordou com um grito, o ombro queimando. O suor gelado escorria por seu corpo, e sentia dificuldade em respirar no ambiente fechado. Estava dentro de uma cabana minúscula e abandonada. O cheiro de mofo pairava no local. Levantou-se, e abriu a janela. Já era dia, e o vento fresco veio de encontro ao seu peito destampado, refrescando-o. Havia sonhado novamente. Odiava ter aqueles pesadelos, que acabavam por recordar coisas que ele já queria ter esquecido. Ainda sentia pontadas no ombro. A cicatriz estava negra, e a área ao redor dela parecia estar podre. Olhou para trás, e viu a figura da menina.
Dandara estava deitada na outra cama. Também estava encharcada de suor, e ardia em febre. Estava coberta por lençóis limpos, e sobre a sua cabeça repousava um pano úmido, que o jovem usava para tentar abaixar sua febre. Dante tirou o pano de sua testa e mergulhou em um balde d’água ao lado da cama, para logo em seguida torcê-lo e recolocá-lo sobre a testa da garota. Nos últimos dias havia se dedicado a cuidar dela. Nem ao menos se preocupava mais em encontrar Gavea. Sabia que o mesmo lhe acharia onde quer que estivesse.
- Não... Dói... Socorro... – dizia a estranha, delirando, enquanto ele passava um pano úmido por seu corpo.
Ele tinha de fazer tudo por ela. Tentava lhe dar água e alimento, mas Dandara não aceitava, virava o rosto inconscientemente, sem deixar que ele abrisse sua boca. Ela também não fazia necessidades, talvez pelo fato de não estar se nutrindo por quase dois dias. Apesar de tudo, ele limpava seu corpo, tirando o excesso do suor, para evitar que ela piorasse. Ficava um tanto quanto constrangido ao limpar as partes mais intimas da moça, o que era natural, mas conseguia conter seus instintos. Enquanto tentava mantê-la viva, Dante ficava cada vez pior. A cicatriz em seu ombro parecia estar matando-o aos poucos, mas ele simplesmente ignorava seu estado.
Batidas na porta. Havia alguém do lado de fora. Seria impossível que estivessem procurando pela garota em uma casa abandonada e caindo aos pedaços. Não havia motivos para visitas. Só podia ser Gavea, pensou. Caminhou lentamente até a porta, tentando não fazer barulho, somente por segurança. Olhou por um buraco que havia na porta de madeira.
Gavea usava um manto cinza de tecido liso, e carregava uma mochila nas costas. Por um momento, Dante não reconheceu o senhor com barba e cabelo curto. Havia se acostumado com a imagem que havia visto em seu sonho: um velho de cabelos longos e barba feita. Mas o que realmente havia deixado o garoto intrigado, havia sido outra coisa: Maria, a mulher que ele havia pedido para dar o recado para o ancião, estava acompanhando-o. Usava uma camisa branca de botões, uma calça jeans preta, e também carregava uma mochila. Por que ele a trouxera? Era muita irresponsabilidade. Abriu a porta.
- Há! Se não é o nosso jovem Dante! Como está garoto? – disse Gavea, com um grande sorriso, Por um momento, aquilo irritou o jovem.
- Ah... Olá Dante – disse Maria. Estava encolhida atrás do velho, como se tivesse medo. Parecia saber que sua presença era inconveniente.
- Por que a trouxe? Não sabe que é perigoso? – perguntou Dante. Seu olhar mostrava reprovação à decisão do velho. Mesmo fraco do jeito que estava, o jovem impunha medo.
- Hei... Esse não parece aquele garoto educado que conheci alguns anos atrás. Eu não queria trazê-la, pode acreditar, ela me obrigou a fazer isso – disse o senhor, olhando para Maria – ela estava preocupada demais para saber se você havia sobrevivido, e disse que só acreditaria vendo com os próprios olhos... – terminou ele, olhando para o chão e balançando a cabeça, ainda com um sorriso no rosto.
Maria enrubesceu e baixou a cabeça. Quando teve coragem de olhar para Dante, não conseguiu sustentar seu olhar.
- Desculpe-me... Fiquei preocupada e...
- Ok, ok... Não tem problema, entrem – disse o outro, cortando-a – por que demoraram tanto?
- Ah, a caminhada na estrada estava muito boa, paramos várias vezes para admirar a paisagem...
- Vocês vieram andando? Não acredito... – perguntou o garoto perplexo com as palavras do ancião – isso explica porque demoraram cinco dias para chegar.
- Eu também não acreditei quando ele disse que não viríamos de carro – disse a mulher, ainda um tanto tímida – mas sim, viemos andando.
- Eu precisava de uma caminhada... E achei que poderia encontrar você no caminho, afinal, deveria estar a pé também. Como chegou tão rápido?
- Eu subi no trem que traz mantimentos para a W-1025... – respondeu.
Gavea balançou a cabeça confirmando. Os dois viajantes entraram na casa abafada, e repousaram as mochilas na cama em que Dante dormia.
- Quem é essa menina? O que houve com ela? – perguntou o velho Gavea, aproximando-se da cama de Dandara e colocando a mão em sua testa – por Deus! Ela está ardendo em febre!
- Bem... Eu a encontrei no parque na cidade. Eu estava sentado, esperando por você, pois imaginei que seria mais fácil de você me achar se não estivesse escondido... Então teve uma confusão em uma universidade lá perto, e ela correu pra dentro do mato. Logo ouvi gritos, e quando fui ver o que estava acontecendo, ela estava tocando em um cachorro, paralisada. Então eu a tirei de perto do cão e trouxe-a pra cá... Estou tentando cuidar dela... Mas ela não melhora, está delirando e...
- Espere, espere... – interrompeu o ancião – um cachorro? Qual era a tonalidade do pêlo dele? O que aconteceu com ele depois do que você contou?
- O pêlo era preto – disse Dante – e depois ele simplesmente desapareceu como se fosse fumaça.
Gavea passava a mão pela barba, olhando a garota, em uma expressão pensativa.
- Entendo... Pelo que você contou, provavelmente, o que vocês encontraram foi o espírito Cuulum...
- Cuulum? – perguntaram Dante e Maria ao mesmo tempo.
- Sim... Ele é a força vital da natureza... Representa a vida em tudo que você vê: uma árvore, uma pedra, um riacho, o céu, e por ai vai. Normalmente, é um espírito inofensivo, a menos que interfira no meio dele. Isso porque quando os humanos constroem cidades, poluem o ar, os rios e cortam as árvores, eles estão agredindo também o Cuulum, tirando pouco a pouco sua vida. Ele se apresenta normalmente na forma de um lobo selvagem de pelagem negra, e pode estar em vários lugares ao mesmo tempo... Ele fica vigiando cada parte da natureza no planeta. E quanto mais preservada está a natureza ao seu redor, mais forte e maior ele é.
- O que nós vimos tinha o tamanho de um cão normal – observou o menino, se lembrando do episódio.
- Exatamente, – continuou o homem – ele estava fraco. Essa cidade é um ambiente completamente humanizado, é natural que estivesse próximo ao pouco que restou da natureza nesse local: as árvores e o lago. Normalmente, os humanos comuns iriam ignorá-lo... Essa garota que você salvou provavelmente é uma veter.
- Veter? – perguntou Dante.
- Bem... É meio complicado para eu explicar isso tudo pra você agora, está cansado... e temos que curar logo essa garota. O espírito provavelmente sugou a energia dela para tentar se restabelecer, mas acabou deixando-a a beira da morte.
Após dizer isso, Gavea foi em direção a sua mochila, e abriu um dos bolsos. Estava cheio de pedaços de madeira com desenhos e cores diferentes: talismãs. Ele remexeu as mãos dentro do compartimento, até finalmente achar o que procurava. Era um pedaço de madeira branco, com um desenho que parecia ser o Sol. Ele se voltou na direção da menina, e colocou o talismã em seu peito.
- O que ele está fazendo? – perguntou Maria, ainda mais assustada.
- Ele vai curá-la... – disse Dante, sem tirar os olhos do procedimento.
Caüm vadat maiu, maiu seme extyrminabur – recitou o velho, os olhos fixos na garota, as veias da têmpora saltadas.
O talismã queimou a roupa da garota, na região em que estava repousado, como se fosse papel, deixando apenas cinzas. Ela começou a tremer, e todas suas veias se destacaram na pele. Ela gritava, apesar de inconsciente, e os olhos abriam e se fechavam rapidamente.
U kés corpi famaris! – recitou novamente o ancião, agora concentrado no talismã.
Silencio. A garota havia parado de tremer, e agora repousava em silêncio. Sua febre havia abaixado instantaneamente, e não estava mais pálida. O talismã em seu peito, antes branco, agora estava negro e quente. Gavea o tirou do peito da garota, e jogou-o no chão. Ao bater sobre a superfície dura, ele se desfragmentou em cinzas. O velho respirava com dificuldade. Provavelmente aquele ritual havia deixado-o exausto.
Dante correu para beirada da cama, apoiando-se sobre a garota, colocando a mão em seu rosto. Pareceu feliz por alguns momentos, antes de baixar o braço rapidamente, aparentemente devido a uma pontada de dor em sua cicatriz.
- Ha... Parece que conseguimos... Garoto... O que aconteceu em seu ombro? – perguntou Gavea, olhando desconfiado para a mancha negra no corte.
- Isso...? Foi quando eu matei o possessun do restaurante dela. Eu só consegui usar o talismã quando o possessun já estava em cima de mim, e ele acabou tocando meu ombro... Mas não é nada grave, não se preocupe... – respondeu o menino. Parecia que só de se lembrar do ferimento, ele acabava sentindo ainda mais dor. Colocou a mão sobre a cicatriz negra e podre.
Maria pareceu se sentir culpada. Afinal, aquilo tinha acontecido graças a ela, se não estivesse lá, o menino poderia ter fugido em vez de tentar ganhar tempo. Sentou-se na cama de Dante, e ficou quieta. Já Gavea, levantou-se e segurou o garoto com força, olhando atentamente o ombro dele.
Apenas tocou? Você é burro?! Isso não é um ferimento, você só conseguiu matar parte do possessun! Tem uma parte dele que está viva, aí, dentro do seu ombro! Fico imaginando como aguentou quase uma semana com isso dentro de você! – disse o velho, não acreditando no que via. Normalmente, o monstro teria crescido e se espalhado até dominar todo corpo, pensou ele. Afinal, o que era aquele garoto?
Talvez por sorte, talvez por azar, mas aconteceu naquele momento. Assim que Gavea se calou, Dante ficou paralisado, os olhos vidrados. A cicatriz em seu ombro ficou mais escura e pareceu dobrar de tamanho. Ele ouvia um zumbido dentro de sua cabeça, e sua visão escureceu. Apesar de ter perdido a consciência, o corpo do menino ainda se movia, por uma força invisível. Uma onda de energia percorreu o corpo do garoto, lançando Gavea em direção a cama, ao lado de Maria.
- Merda...
Gavea vasculhava novamente a mochila, nervoso, procurando outro talismã. Os olhos do garoto estavam completamente negros, como se estivessem vazios, e ele emitiu um uivo, talvez de dor, talvez de fúria. Virou-se na direção do velho, e sibilou, com uma voz fria e rascante.
- Umonis naiurds... Une evet!
Dante exibia um sorriso no mínimo diabólico, e de sua boca saía uma fumaça negra: a verdadeira forma do monstro. O corpo do menino começou a caminhar calmamente na direção de Gavea. O homem parecia finalmente ter achado o talismã, e apontou-o para o ombro do garoto.
- Você que irá desaparecer, desgraçado! Kad iferum une evet! – recitou, momentos antes da fera em forma de homem saltar sobre ele. O ombro do jovem explodiu no meio do salto, lançando-o contra a parede da estrutura frágil da velha cabana, criando uma rachadura.
Gavea se aproximou, cauteloso, da figura pálida. Não sabia se estava vivo. Matar um possessun, normalmente também matava o hospedeiro. O ombro dele estava com um buraco enorme onde o tiro do talismã havia acertado. Porém não havia mais sinal de podridão nem da ferida escura. Uma fumaça aparentemente inofensiva saia do ferimento, como se algo tivesse queimado lá dentro.
Aparentemente. Como se tivesse vida, a fumaça ficou densa rapidamente, e avançou sobre o homem desprevenido. Gavea por puro reflexo cantou o refrão novamente e disparou. Outra explosão. O cheiro de queimado impregnou o ar, e os vidros das janelas vibraram. Finalmente a criatura havia morrido.
- Dante? – perguntou o senhor. Estava coberto de fuligem.
Maria estava encolhida na cama, coberta com os lençóis, as lágrimas rolando pelo rosto. Gavea se levantou e foi na direção do corpo. Tomou o pulso dele. Estava fraco, mas vivo. Realmente, um garoto impressionante, não havia morrido em uma semana inteira com aquilo dentro do corpo, levou todo aquele dano para matar o monstro, e mesmo assim estava vivo. Pegou o jovem no colo e carregou-o com certa dificuldade em direção a cama.
- Maria, deixe-me colocá-lo ai, ele precisa de cuidados urgentes, mas ainda pode ser salvo.
- T-tudo bem, posso a-ajudar em alguma coisa? – perguntou ela, soluçando, levantando-se da cama.
- Apenas cuide da garota enquanto eu cuido dele. Vão se passar alguns dias até que ele esteja bem. – disse ele enquanto colocava o menino na cama.
Gavea começou a procurar algo na mochila novamente, e tirou um tubo de uma espécie de pasta esverdeada. Começou a cobrir o ferimento do garoto com ela, mas Dante segurou seu punho. O garoto estava acordado, e ainda tinha forças para se mover. Era impossível, ele só podia ser um monstro, pensou o ancião.
- Gavea... Nem pense em desaparecer... Precisamos resolver essa bagunça... – disse o menino, a voz fraca. Os olhos estavam entreabertos.
- Apenas repouse garoto... Não se preocupe, irei tratar de você... – disse o senhor, tirando a mão de Dante de seu pulso e repousando-a na cama.
O menino esboçou um sorriso, e disse uma ultima frase antes de adormecer.
- Cuide dela...
Gavea sorriu.

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