quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Capítulo II - Grito



Carlos era um senhor de idade já avançada. Tinha a cabeça quase que completamente careca, e os poucos fios de cabelo que possuía eram brancos. Sua pele era tão oleosa, e seu físico era tão avantajado, que poderia facilmente ser confundido com um porco em trajes finos. Apesar da aparência não muito intimidadora, por baixo das roupas, ostentava diversas cicatrizes da guerra. Ele havia passado anos difíceis e, após a grande unificação, foi encarregado de cuidar da cidade W-1036. Com isso, ganhou certos privilégios, como sua casa, que era de longe a mais luxuosa da região, e sua cama uma das mais confortáveis. Não parece ser muita coisa, mas pra um homem que batalhou por anos em meio ao terror, nada melhor do que o descanso.
E lá estava o senhor, deitado, dormindo profundamente. O dia havia sido difícil, afinal, mesmo sendo pequena, a cidade tinha muitos problemas, e cuidar de todos eles era bastante trabalhoso, ainda mais tendo uma tropa de apenas cem soldados. A taxa de criminalidade tinha aumentado nos últimos anos. Aquelas mudanças haviam desorganizado todo o sistema, e o lado podre da sociedade estava se aproveitando da situação. A cada dia, mais conflitos aconteciam por todo o mundo. Fora que precisava coordenar as fiscalizações ao comércio, montar a tabela diária de preços, mandar relatórios para o Grande Trono, e ainda tinha de cuidar do bem-estar da população. Tinha pena das famílias, que nada tinham a ver com aquilo tudo, mas eram as que mais sofriam as consequências. E quanto mais pensava nisso, mais seu cérebro ficava exausto. Por isso, esqueceu o mundo e se preocupou apenas com seu descanso. Provavelmente ele teria dormido até tarde do dia seguinte. Apenas provavelmente, pois durante a madrugada um bater de palmas em sua porta substituiu o som constante da chuva e acabou despertando-o.
Levantou-se, o rosto sonolento e vermelho, o pijama de bolinhas apertando-o na região da barriga. Andava lentamente até a porta do quarto, coçando a bochecha lisa enquanto dava um bocejo demorado, deixando o cheiro do álcool que havia ingerido antes de dormir se espalhar por todos os lados. As palmas do lado de fora não paravam, frenéticas, apressando o senhor. Demorou ainda mais algum tempo até chegar à porta da sala, e quando a abriu, já estava sem paciência com tanto barulho do lado de fora.
- Quem é? Não sabe que horas são? – perguntou o velho, com a cara rabugenta, ao abrir a porta. Mas assim que viu as duas figuras femininas assustadas a sua frente, molhadas da cabeça aos pés pela chuva, abriu espaço para entrarem. – O que aconteceu Dulce?
- Senhor Carlos! Ela não está bem!
Dulce era uma mulher negra e alta, bonita, cabelos cacheados e olhos castanhos claros. Usava pijama e parecia ter saído da cama há pouco tempo, exatamente como Carlos. Apoiada em seus ombros, estava Maria. Seus cabelos loiros estavam completamente bagunçados, talvez pela água da chuva. A maquiagem estava borrada, graças a uma mistura uniforme da água com as lágrimas que rolavam pelo seu rosto. Sua face demonstrava medo, o mais puro medo.
- O que aconteceu, Maria? Dulce! Pegue um copo d’água na minha cozinha, por favor, eu cuido dela – pediu Carlos, tomando Maria em seus ombros e conduzindo-a até um sofá da sala. Pegou duas toalhas em um armário, e com uma envolveu a mulher, que tremia de frio.
Dulce voltou com o copo nas mãos, a expressão preocupada. Carlos lhe cobriu também com a outra toalha e pegou a água. Deu pequenos goles para Maria, sentada no sofá, enquanto passava a mão em suas costas, tentando consolá-la não sabia do quê. Ela respirou fundo. Sua mão direita tremia, e nela estava amassado entre os dedos um envelope molhado.
- U-um garoto... Dante... Perigo... No restaurante... – gaguejou a mulher, em choque. Apertava o envelope cada vez mais forte.
- No Caravelas? – perguntou Carlos, aflito.
Maria balançou a cabeça positivamente, e agarrou o homem pelo pijama, os olhos azuis olhando no fundo dos dele.
- Precisamos... Entregar... Antes... – disse ela, apertando o envelope contra o corpo dele, enquanto segurava o pijama do senhor.
- Ok, ok... Dulce, pode voltar para casa, obrigado, vou ajudar Maria e descobrir o que está acontecendo... – disse, levantando-se e ajudando a jovem trêmula a fazer o mesmo. Foi até a mesa e pegou as chaves do carro.
- Tudo bem... Quando voltarem, me liguem para dar notícias, não quero ficar preocupada. Teria um guarda-chuva? Depois eu devolvo...
Carlos pegou um guarda-chuva preto e entregou à mulher, que saiu da casa. A chuva já estava mais fina agora, e ele e Maria correram para o carro, um Camaro, ano 2010. Ela ainda estava em choque, mas já parecia mais calma.
- Ok... Pra onde você tem que levar o envelope? – perguntou o homem, tentando ligar o carro. Tudo bem que gostava de clássicos, mas, às vezes, desejava ter um carro com ignição digital. Sempre se embaralhava com as chaves.
- Eu não sei... Um homem chamado Gavea – disse ela, olhando para o envelope amassado. Tinha finalmente dito uma frase completa, pensou Carlos.
- Gavea? É meu parceiro de canastra! Jogamos toda semana... A casa dele é aqui perto, vou te levar até lá.
Ele deu ré no carro para sair da garagem. Durante o caminho, a mulher ficou com a cabeça encostada no vidro da janela do carro, pensativa, ainda tremendo. As trovoadas continuaram, mas até chegarem ao destino, a chuva finalmente havia acabado. Pararam em frente a uma casa simples. Tinha as paredes brancas e janelas e portas de madeira, pintadas de azul. Havia várias samambaias pelo jardim, todas bem cuidadas. O dono da casa parecia dedicar boa parte de seu tempo às plantas.
Saíram do carro e caminharam até a porta. A maçaneta tinha detalhes estranhos, várias estrelas, e, no centro, uma espécie de circulo com uma seta dentro. Maria ainda parecia abalada. Carlos tinha esperanças que ela explicasse o que havia acontecido. Tocaram a campainha, mas parecia estar estragada, então bateram. Momentos depois, a maçaneta adornada girou, a porta se abriu com um rangido, e viram a sua frente a figura de um velho.
Gavea era idoso, assim como Carlos, porém tinha uma aparência muito mais interessante. Possuía cabelos curtos e prateados e uma barba grande da mesma tonalidade dos cabelos, que ia até o peito. Usava um pijama xadrez, e seus olhos, de um tom cinza bem claro, os encaravam com certa calma, contrastando com o fuzil que carregava em suas mãos. Tinha a expressão fechada e preocupada.
- Gavea! Velho amigo, como é bom lhe ver! – disse Carlos, com um sorriso aberto, mostrando que vários de seus dentes já não estavam mais lá. – Desculpe lhe incomodar a essa hora da madrugada, mas...
- Me conte sobre os gritos, rápido – interrompeu o outro idoso. Os olhos dele estavam fixos em Maria.
A mulher parecia com medo da recepção consideravelmente agressiva do senhor. Porém pareceu reunir coragem o suficiente para responder.
- O senhor ouviu os gritos também? Viu aquelas imagens horríveis? – perguntou Maria. Sua expressão estava apavorada, da mesma forma que antes, quando chegou apoiada nos ombros de Dulce.
- Sim... Ouvi, mas não cheguei a ver as imagens, graças à proteção da minha casa... Mas percebi que meus talismãs estavam queimados – disse Gavea. Carlos estava totalmente deslocado na conversa. Maria pareceu confusa sobre os “talismãs”, mas ignorou a dúvida.
- Gritos? Mas não ouvi grito ne...
- Havia um garoto chamado Dante... De cabelos brancos... Ele pediu para lhe entregar isto... – contou ela, entregando o envelope para Gavea, as mãos ainda tremendo.
O estranho velho pegou o envelope, abriu e deu uma lida rápida. Amassou o papel, os olhos fechados, com uma expressão preocupada. Ele conhecia o garoto. Tinha conhecido o pai dele. Não só isso, como tinha ensinado o pai dele.
- Me levem até o garoto, rápido! Se for o que estou pensando, ele está em perigo! – disse ele, correndo na direção do carro, sem nem mesmo esperar os outros dois.
Todos entraram no carro. Carlos ainda parecia perdido, mas assim que Maria pediu para que fossem ao “O Caravelas”, ele partiu o mais rápido que pode. Gavea se sentou no banco de trás, junto com Maria.
- Então, conte-me exatamente o que aconteceu... É... Seu nome é? – perguntou Gavea, que só agora havia se dado conta que não sabia nada sobre a mulher.
- Me chamo Maria... Bem, ele surgiu do nada. Estava pálido, e mal conseguia falar. Resolvi ajudá-lo, servi comida e bebida, e tive um conversa um tanto estranha com ele... – disse, pensativa – Então, enquanto conversávamos, os móveis do restaurante começaram a explodir, não consegui entender o que estava acontecendo, só me lembro que um senhor que estava dormindo no restaurante desapareceu... as coisas estavam voando e explodindo, e o garoto me pediu pra eu lhe trazer o envelope... Saí com medo, e então, bem... – deu uma pausa, engoliu em seco, como se não quisesse continuar – então vim na direção das casas, não sabia exatamente onde encontraria o senhor... Ia em direção da casa do senhor Carlos, quando aquele grito ensurdecedor veio da direção do restaurante... Foi horrível, foi como se bombardeassem uma tonelada de imagens no meu cérebro, assim que ouvi aquele som. Vi as coisas mais insuportáveis do mundo... – começou a tremer novamente, e o olhar ficou novamente vidrado, vazio.
Gavea ficou calado, mas pareceu saber exatamente o que havia acontecido. E se estivesse certo, Dante estava em apuros. O filho de seu antigo discípulo... Era um menino especial.
Passaram-se alguns momentos de silêncio profundo no carro, com um clima pesado, até chegarem ao restaurante. Quer dizer, o que deveria ser o restaurante. Saíram do veículo. A casa, que antes já estava em estado deplorável, agora estava definitivamente arruinada. Parecia que uma bomba havia explodido dentro do local: as paredes estavam destruídas e tombadas, pedaços de madeira e telhas por todos os lados, o neon estava distorcido no local onde deveria estar a entrada, apagado. Pedaços dos móveis estavam por todos os lados. Havia até mesmo cadeiras, do lado de fora de loja, bem longe de onde deveriam estar. O senhor Carlos pegou uma delas, a virou para a posição correta, e se sentou, descansando.
- O que você aprontou aqui, Maria? – Perguntou ele, observando o local.
- N-nada... Eu apenas deixei o garoto e... O garoto! Onde ele está? Será que está bem? – Perguntou ela, enquanto saía correndo, procurando Dante no meio dos destroços.
Gavea circulou a construção, olhando cada detalhe. Aquilo não tinha sido obra de nenhum explosivo. Ele podia sentir energia emanando de cada tora de madeira no chão. Se fosse realmente o que estava pensando, a chance do garoto estar vivo era ainda menor.
Um grito. Maria estava no meio dos destroços, as mãos no rosto, horrorizada. Chorava e gritava. Carlos correu em sua direção, preocupado, mas parou e olhou para algo que Gavea não conseguia ver de onde estava. Haviam achado o corpo do menino, pensou. Aproximou-se calmamente, esperando ver um garoto de cabelos brancos deitado, inerte. Surpreendeu-se. No chão não havia o corpo de um garoto, e sim o de um velho, com aparência de mendigo.
- Ele... Ele estava dormindo, enquanto eu e o g-garoto conversávamos... – dizia ela, novamente em choque. Carlos a abraçava, olhando para o cadáver, intrigado e com medo.
Sim, medo. Não só pelo fato de haver um cadáver na frente do grupo, mas especificamente aquele cadáver. O morto estava de olhos abertos, com uma expressão diabólica estampada no rosto, sorrindo como se ainda estivesse vivo. Sua pele estava completamente branca, como se tivesse perdido todo o sangue do corpo durante a morte. E, no centro de seu peito, havia um buraco enorme, como se algo tivesse saído de dentro da caixa torácica. Gavea se aproximou do corpo. Sabia exatamente o que havia acontecido e o que era aquilo. Enfiou a mão no buraco do peito do defunto, segurou as costelas e puxou com muito esforço, rasgando a pele e quebrando os ossos que protegiam o coração da vítima. E lá estava. Todos os órgãos do corpo pareciam ainda estar “frescos”, porém o coração estava podre e seco, completamente negro.
- Hm... Como imaginei. Você sabe o que é isso? – perguntou, mostrando o órgão em putrefação para Carlos. O outro não se abalou, talvez por já ter visto coisas piores na guerra, mas Maria se encolheu de repulsa.
- Ah... Gavea, não comece com essas histórias... Você já fez muita maluquice por causa dessas alucinações doentias durante a guerra...
- É um contain. Um corpo usado por um possessun para tomar forma física e se alimentar – dizia o senhor, que continuava a explorar o interior do corpo.
Possessun? Do que você está falando, velho? Ficou biruta? – perguntou Carlos, completamente indignado - já chega disso tudo. Maria está ficando enjoada, deixe esse presunto e vamos embora!
Gavea fez uma cara de impaciência.
- São criaturas que se alimentam da energia vital do hospedeiro. Eles entram em um corpo e o habitam como um parasita, se nutrindo da alma e da força vital, até que não reste nada, e faça o coração da pessoa apodrecer. Nessa hora então, o monstro tem que arranjar um novo recipiente, um novo contain para poder sobreviver. Esse recipiente aqui já estava com a energia esgotada, pelo que a senhorita me explicou – disse ele, se lembrando do relato da moça, que dizia que o velho estava dormindo – e provavelmente resolveu pegar um corpo novo. Aquele grito que você ouviu era nada menos que uma “arma” que os possessun usam para paralisar a vítima. O grito deles projeta as imagens mais grotescas e desagradáveis que a imaginação pode criar, as cenas mais terríveis que poderia suportar. Eu só não entendo o que aconteceu com ele, normalmente, quando mudam de corpo, eles não deixam nenhum ferimento, apenas saem como fumaça do corpo e entram no novo. Esse aqui foi completamente destruído antes mesmo de sair...
- Mas... Esse grito conseguiu me paralisar e até mesmo o senhor ouviu, pelo que contou... Então por que o resto das pessoas da cidade não pôde ouvi-lo? – perguntou Maria, confusa.
- O grito do possessun só faz efeito em veters, pessoas que tem descendência direta com alguma das forças da natureza... – disse o velho, olhando para Maria com uma expressão intrigada, como se finalmente tivesse descoberto algo importante sobre ela.
Maria e Carlos observavam a explicação do senhor, sem entender muita coisa. Possessun? Um perigo abstrato demais para quem havia se acostumado com a violência das cidades. Gavea continuava observando o corpo e fazendo observações, até que um detalhe, próximo ao buraco inicial no peito do cadáver, chamou sua atenção. Uma pequena placa de madeira carbonizada, do tamanho de seu dedo polegar, entalhada com desenhos abstratos, parecidos com os da maçaneta de sua porta. Estava camuflada no sangue e nas queimaduras internas do ferimento.
- Hm... Um talismã... Será que esse garoto...? – dizia ele, pensativo.
Os outros integrantes do grupo já haviam desistido de tentar entender o raciocínio do velho biruta, e haviam se sentado nas cadeiras jogadas que haviam sobrado inteiras. Maria não aguentou mais a aflição, e se levantou.
- Afinal, o garoto está ou não bem? Tem um cadáver bem na nossa frente, e o senhor age como se nada estivesse acontecendo! Você é o quê? Um maníaco, um psicopata? Carlos, você tem certeza que esse... Esse... Isso tem condições de nos ajudar? – dizia ela, a raiva escapando em baforadas de ar pelo nariz. Quando estava nervosa, costumava falar muito.
Tudo que Carlos pode fazer foi olhar para o amigo com o rosto aflito e levantar os ombros para a mulher, com um sorriso sem graça. Gavea deu uma risada, com a maior calma. Entendia a preocupação da moça.
- Está tudo bem, o garoto, de alguma forma, conseguiu escapar ileso...
- Como pode saber? – perguntou ela, desconfiada que o homem pudesse estar apenas querendo tranquilizá-la.
- Simples, o corpo dele não está aqui.
- E desde quando isso exclui a possibilidade de ele ter se ferido ou morrido? – perguntou a garçonete, os olhos saltados. Estava a ponto de ter um ataque de nervos.
- Esqueça isso, tenho certeza de que ele está bem, podem voltar para suas casas, despreocupados. Quanto à senhorita, lamento pelo restaurante. Bem, podem me levar para casa, tenho que me preparar para uma longa viagem – dizia o idoso, com um sorriso no rosto.
Maria e Carlos olhavam para ele, sem saber o que falar. Carlos sentia que não tinha sido útil em nada e insistia em mandar no outro dia um grupo de homens para olhar o local e procurar mais pistas sobre o que havia acontecido, e Maria não se convencia de que o garoto estava completamente bem. Gavea ria dos dois e mandava ambos pararem de se preocupar tanto, e insistia que deviam ir logo para casa. Por fim, aceitaram a sugestão, por estar quase amanhecendo. Estavam cansados e confusos. Entraram no carro e partiram pelo caminho de volta.
- Para onde pretende ir, Gavea? – perguntou Carlos, enquanto dirigia. Maria também parecia estar pensando sobre isso e deixou um ar de interrogação com seu olhar. Ainda estava muito irritada.
Gavea simplesmente retirou o envelope que havia recebido de Maria, abriu, e entregou aos dois. Estava escrito:

“Se chegar a receber isso de outra pessoa, saiba que estou lhe esperando, na cidade W-1025. Tenho assuntos importantes para tratar com você.
Dante, filho de seu antigo aluno, Nicolau.”

Um comentário:

  1. Ou rapaz, não vai mais postar sua história.
    É uma pena, pois eu estava gostando muito.

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