Carlos
era um senhor de idade já avançada. Tinha a cabeça quase que completamente
careca, e os poucos fios de cabelo que possuía eram brancos. Sua pele era tão
oleosa, e seu físico era tão avantajado, que poderia facilmente ser confundido
com um porco em trajes finos. Apesar da aparência não muito intimidadora, por
baixo das roupas, ostentava diversas cicatrizes da guerra. Ele havia passado
anos difíceis e, após a grande unificação, foi encarregado de cuidar da cidade
W-1036. Com isso, ganhou certos privilégios, como sua casa, que era de longe a
mais luxuosa da região, e sua cama uma das mais confortáveis. Não parece ser
muita coisa, mas pra um homem que batalhou por anos em meio ao terror, nada
melhor do que o descanso.
E lá
estava o senhor, deitado, dormindo profundamente. O dia havia sido difícil,
afinal, mesmo sendo pequena, a cidade tinha muitos problemas, e cuidar de todos
eles era bastante trabalhoso, ainda mais tendo uma tropa de apenas cem
soldados. A taxa de criminalidade tinha aumentado nos últimos anos. Aquelas
mudanças haviam desorganizado todo o sistema, e o lado podre da sociedade
estava se aproveitando da situação. A cada dia, mais conflitos aconteciam por
todo o mundo. Fora que precisava coordenar as fiscalizações ao comércio, montar
a tabela diária de preços, mandar relatórios para o Grande Trono, e ainda tinha
de cuidar do bem-estar da população. Tinha pena das famílias, que nada tinham a
ver com aquilo tudo, mas eram as que mais sofriam as consequências. E quanto
mais pensava nisso, mais seu cérebro ficava exausto. Por isso, esqueceu o mundo
e se preocupou apenas com seu descanso. Provavelmente ele teria dormido até
tarde do dia seguinte. Apenas provavelmente, pois durante a madrugada um bater
de palmas em sua porta substituiu o som constante da chuva e acabou
despertando-o.
Levantou-se,
o rosto sonolento e vermelho, o pijama de bolinhas apertando-o na região da
barriga. Andava lentamente até a porta do quarto, coçando a bochecha lisa
enquanto dava um bocejo demorado, deixando o cheiro do álcool que havia
ingerido antes de dormir se espalhar por todos os lados. As palmas do lado de
fora não paravam, frenéticas, apressando o senhor. Demorou ainda mais algum
tempo até chegar à porta da sala, e quando a abriu, já estava sem paciência com
tanto barulho do lado de fora.
- Quem
é? Não sabe que horas são? – perguntou o velho, com a cara rabugenta, ao abrir
a porta. Mas assim que viu as duas figuras femininas assustadas a sua frente,
molhadas da cabeça aos pés pela chuva, abriu espaço para entrarem. – O que
aconteceu Dulce?
- Senhor
Carlos! Ela não está bem!
Dulce
era uma mulher negra e alta, bonita, cabelos cacheados e olhos castanhos claros.
Usava pijama e parecia ter saído da cama há pouco tempo, exatamente como
Carlos. Apoiada em seus ombros, estava Maria. Seus cabelos loiros estavam
completamente bagunçados, talvez pela água da chuva. A maquiagem estava
borrada, graças a uma mistura uniforme da água com as lágrimas que rolavam pelo
seu rosto. Sua face demonstrava medo, o mais puro medo.
- O que
aconteceu, Maria? Dulce! Pegue um copo d’água na minha cozinha, por favor, eu
cuido dela – pediu Carlos, tomando Maria em seus ombros e conduzindo-a até um
sofá da sala. Pegou duas toalhas em um armário, e com uma envolveu a mulher,
que tremia de frio.
Dulce
voltou com o copo nas mãos, a expressão preocupada. Carlos lhe cobriu também
com a outra toalha e pegou a água. Deu pequenos goles para Maria, sentada no
sofá, enquanto passava a mão em suas costas, tentando consolá-la não sabia do
quê. Ela respirou fundo. Sua mão direita tremia, e nela estava amassado entre
os dedos um envelope molhado.
- U-um
garoto... Dante... Perigo... No restaurante... – gaguejou a mulher, em choque.
Apertava o envelope cada vez mais forte.
- No
Caravelas? – perguntou Carlos, aflito.
Maria
balançou a cabeça positivamente, e agarrou o homem pelo pijama, os olhos azuis
olhando no fundo dos dele.
-
Precisamos... Entregar... Antes... – disse ela, apertando o envelope contra o
corpo dele, enquanto segurava o pijama do senhor.
- Ok, ok...
Dulce, pode voltar para casa, obrigado, vou ajudar Maria e descobrir o que está
acontecendo... – disse, levantando-se e ajudando a jovem trêmula a fazer o
mesmo. Foi até a mesa e pegou as chaves do carro.
- Tudo
bem... Quando voltarem, me liguem para dar notícias, não quero ficar
preocupada. Teria um guarda-chuva? Depois eu devolvo...
Carlos
pegou um guarda-chuva preto e entregou à mulher, que saiu da casa. A chuva já
estava mais fina agora, e ele e Maria correram para o carro, um Camaro, ano
2010. Ela ainda estava em choque, mas já parecia mais calma.
- Ok...
Pra onde você tem que levar o envelope? – perguntou o homem, tentando ligar o
carro. Tudo bem que gostava de clássicos, mas, às vezes, desejava ter um carro
com ignição digital. Sempre se embaralhava com as chaves.
- Eu não
sei... Um homem chamado Gavea – disse ela, olhando para o envelope amassado.
Tinha finalmente dito uma frase completa, pensou Carlos.
- Gavea?
É meu parceiro de canastra! Jogamos toda semana... A casa dele é aqui perto,
vou te levar até lá.
Ele deu
ré no carro para sair da garagem. Durante o caminho, a mulher ficou com a
cabeça encostada no vidro da janela do carro, pensativa, ainda tremendo. As
trovoadas continuaram, mas até chegarem ao destino, a chuva finalmente havia
acabado. Pararam em frente a uma casa simples. Tinha as paredes brancas e
janelas e portas de madeira, pintadas de azul. Havia várias samambaias pelo
jardim, todas bem cuidadas. O dono da casa parecia dedicar boa parte de seu
tempo às plantas.
Saíram
do carro e caminharam até a porta. A maçaneta tinha detalhes estranhos, várias
estrelas, e, no centro, uma espécie de circulo com uma seta dentro. Maria ainda
parecia abalada. Carlos tinha esperanças que ela explicasse o que havia
acontecido. Tocaram a campainha, mas parecia estar estragada, então bateram.
Momentos depois, a maçaneta adornada girou, a porta se abriu com um rangido, e
viram a sua frente a figura de um velho.
Gavea
era idoso, assim como Carlos, porém tinha uma aparência muito mais
interessante. Possuía cabelos curtos e prateados e uma barba grande da mesma
tonalidade dos cabelos, que ia até o peito. Usava um pijama xadrez, e seus
olhos, de um tom cinza bem claro, os encaravam com certa calma, contrastando
com o fuzil que carregava em suas mãos. Tinha a expressão fechada e preocupada.
- Gavea!
Velho amigo, como é bom lhe ver! – disse Carlos, com um sorriso aberto,
mostrando que vários de seus dentes já não estavam mais lá. – Desculpe lhe
incomodar a essa hora da madrugada, mas...
- Me
conte sobre os gritos, rápido – interrompeu o outro idoso. Os olhos dele
estavam fixos em Maria.
A mulher
parecia com medo da recepção consideravelmente agressiva do senhor. Porém pareceu
reunir coragem o suficiente para responder.
- O
senhor ouviu os gritos também? Viu aquelas imagens horríveis? – perguntou
Maria. Sua expressão estava apavorada, da mesma forma que antes, quando chegou
apoiada nos ombros de Dulce.
- Sim...
Ouvi, mas não cheguei a ver as imagens, graças à proteção da minha casa... Mas
percebi que meus talismãs estavam queimados – disse Gavea. Carlos estava
totalmente deslocado na conversa. Maria pareceu confusa sobre os “talismãs”,
mas ignorou a dúvida.
-
Gritos? Mas não ouvi grito ne...
- Havia
um garoto chamado Dante... De cabelos brancos... Ele pediu para lhe entregar
isto... – contou ela, entregando o envelope para Gavea, as mãos ainda tremendo.
O
estranho velho pegou o envelope, abriu e deu uma lida rápida. Amassou o papel,
os olhos fechados, com uma expressão preocupada. Ele conhecia o garoto. Tinha
conhecido o pai dele. Não só isso, como tinha ensinado o pai
dele.
- Me
levem até o garoto, rápido! Se for o que estou pensando, ele está em perigo! –
disse ele, correndo na direção do carro, sem nem mesmo esperar os outros dois.
Todos
entraram no carro. Carlos ainda parecia perdido, mas assim que Maria pediu para
que fossem ao “O Caravelas”, ele partiu o mais rápido que pode. Gavea se sentou
no banco de trás, junto com Maria.
- Então,
conte-me exatamente o que aconteceu... É... Seu nome é? – perguntou Gavea, que
só agora havia se dado conta que não sabia nada sobre a mulher.
- Me
chamo Maria... Bem, ele surgiu do nada. Estava pálido, e mal conseguia falar.
Resolvi ajudá-lo, servi comida e bebida, e tive um conversa um tanto estranha
com ele... – disse, pensativa – Então, enquanto conversávamos, os móveis do
restaurante começaram a explodir, não consegui entender o que estava
acontecendo, só me lembro que um senhor que estava dormindo no restaurante
desapareceu... as coisas estavam voando e explodindo, e o garoto me pediu pra
eu lhe trazer o envelope... Saí com medo, e então, bem... – deu uma pausa,
engoliu em seco, como se não quisesse continuar – então vim na direção das
casas, não sabia exatamente onde encontraria o senhor... Ia em direção da casa
do senhor Carlos, quando aquele grito ensurdecedor veio da direção do
restaurante... Foi horrível, foi como se bombardeassem uma tonelada de imagens
no meu cérebro, assim que ouvi aquele som. Vi as coisas mais insuportáveis do
mundo... – começou a tremer novamente, e o olhar ficou novamente vidrado,
vazio.
Gavea
ficou calado, mas pareceu saber exatamente o que havia acontecido. E se
estivesse certo, Dante estava em apuros. O filho de seu antigo discípulo... Era
um menino especial.
Passaram-se
alguns momentos de silêncio profundo no carro, com um clima pesado, até
chegarem ao restaurante. Quer dizer, o que deveria ser o
restaurante. Saíram do veículo. A casa, que antes já estava em estado
deplorável, agora estava definitivamente arruinada. Parecia que uma bomba havia
explodido dentro do local: as paredes estavam destruídas e tombadas, pedaços de
madeira e telhas por todos os lados, o neon estava distorcido no local onde
deveria estar a entrada, apagado. Pedaços dos móveis estavam por todos os
lados. Havia até mesmo cadeiras, do lado de fora de loja, bem longe de onde
deveriam estar. O senhor Carlos pegou uma delas, a virou para a posição
correta, e se sentou, descansando.
- O que
você aprontou aqui, Maria? – Perguntou ele, observando o local.
-
N-nada... Eu apenas deixei o garoto e... O garoto! Onde ele está? Será que está
bem? – Perguntou ela, enquanto saía correndo, procurando Dante no meio dos
destroços.
Gavea
circulou a construção, olhando cada detalhe. Aquilo não tinha sido obra de
nenhum explosivo. Ele podia sentir energia emanando de cada tora de madeira no
chão. Se fosse realmente o que estava pensando, a chance do garoto estar vivo
era ainda menor.
Um
grito. Maria estava no meio dos destroços, as mãos no rosto, horrorizada.
Chorava e gritava. Carlos correu em sua direção, preocupado, mas parou e olhou
para algo que Gavea não conseguia ver de onde estava. Haviam achado o corpo do
menino, pensou. Aproximou-se calmamente, esperando ver um garoto de cabelos
brancos deitado, inerte. Surpreendeu-se. No chão não havia o corpo de um
garoto, e sim o de um velho, com aparência de mendigo.
- Ele...
Ele estava dormindo, enquanto eu e o g-garoto conversávamos... – dizia ela,
novamente em choque. Carlos a abraçava, olhando para o cadáver, intrigado e com
medo.
Sim,
medo. Não só pelo fato de haver um cadáver na frente do grupo, mas
especificamente aquele cadáver. O morto estava de olhos
abertos, com uma expressão diabólica estampada no rosto, sorrindo como se ainda
estivesse vivo. Sua pele estava completamente branca, como se tivesse perdido
todo o sangue do corpo durante a morte. E, no centro de seu peito, havia um
buraco enorme, como se algo tivesse saído de dentro da caixa torácica. Gavea se
aproximou do corpo. Sabia exatamente o que havia acontecido e o que era aquilo.
Enfiou a mão no buraco do peito do defunto, segurou as costelas e puxou com
muito esforço, rasgando a pele e quebrando os ossos que protegiam o coração da
vítima. E lá estava. Todos os órgãos do corpo pareciam ainda estar “frescos”,
porém o coração estava podre e seco, completamente negro.
- Hm...
Como imaginei. Você sabe o que é isso? – perguntou, mostrando o órgão em
putrefação para Carlos. O outro não se abalou, talvez por já ter visto coisas
piores na guerra, mas Maria se encolheu de repulsa.
- Ah...
Gavea, não comece com essas histórias... Você já fez muita maluquice por causa
dessas alucinações doentias durante a guerra...
- É
um contain. Um corpo usado por um possessun para
tomar forma física e se alimentar – dizia o senhor, que continuava a explorar o
interior do corpo.
- Possessun?
Do que você está falando, velho? Ficou biruta? – perguntou Carlos,
completamente indignado - já chega disso tudo. Maria está ficando enjoada,
deixe esse presunto e vamos embora!
Gavea
fez uma cara de impaciência.
- São
criaturas que se alimentam da energia vital do hospedeiro. Eles entram em um
corpo e o habitam como um parasita, se nutrindo da alma e da força vital, até
que não reste nada, e faça o coração da pessoa apodrecer. Nessa hora então, o
monstro tem que arranjar um novo recipiente, um novo contain para
poder sobreviver. Esse recipiente aqui já estava com a energia esgotada, pelo
que a senhorita me explicou – disse ele, se lembrando do relato da moça, que
dizia que o velho estava dormindo – e provavelmente resolveu pegar um corpo
novo. Aquele grito que você ouviu era nada menos que uma “arma” que os possessun usam
para paralisar a vítima. O grito deles projeta as imagens mais grotescas e
desagradáveis que a imaginação pode criar, as cenas mais terríveis que poderia
suportar. Eu só não entendo o que aconteceu com ele, normalmente, quando mudam
de corpo, eles não deixam nenhum ferimento, apenas saem como fumaça do corpo e
entram no novo. Esse aqui foi completamente destruído antes mesmo de sair...
- Mas...
Esse grito conseguiu me paralisar e até mesmo o senhor ouviu, pelo que
contou... Então por que o resto das pessoas da cidade não pôde ouvi-lo? –
perguntou Maria, confusa.
- O
grito do possessun só faz efeito em veters,
pessoas que tem descendência direta com alguma das forças da natureza... –
disse o velho, olhando para Maria com uma expressão intrigada, como se finalmente
tivesse descoberto algo importante sobre ela.
Maria e
Carlos observavam a explicação do senhor, sem entender muita coisa. Possessun?
Um perigo abstrato demais para quem havia se acostumado com a violência das
cidades. Gavea continuava observando o corpo e fazendo observações, até que um
detalhe, próximo ao buraco inicial no peito do cadáver, chamou sua atenção. Uma
pequena placa de madeira carbonizada, do tamanho de seu dedo polegar, entalhada
com desenhos abstratos, parecidos com os da maçaneta de sua porta. Estava
camuflada no sangue e nas queimaduras internas do ferimento.
- Hm...
Um talismã... Será que esse garoto...? – dizia ele, pensativo.
Os
outros integrantes do grupo já haviam desistido de tentar entender o raciocínio
do velho biruta, e haviam se sentado nas cadeiras jogadas que haviam sobrado
inteiras. Maria não aguentou mais a aflição, e se levantou.
-
Afinal, o garoto está ou não bem? Tem um cadáver bem na nossa frente, e o
senhor age como se nada estivesse acontecendo! Você é o quê? Um maníaco, um
psicopata? Carlos, você tem certeza que esse... Esse... Isso tem
condições de nos ajudar? – dizia ela, a raiva escapando em baforadas de ar pelo
nariz. Quando estava nervosa, costumava falar muito.
Tudo que
Carlos pode fazer foi olhar para o amigo com o rosto aflito e levantar os
ombros para a mulher, com um sorriso sem graça. Gavea deu uma risada, com a
maior calma. Entendia a preocupação da moça.
- Está
tudo bem, o garoto, de alguma forma, conseguiu escapar ileso...
- Como
pode saber? – perguntou ela, desconfiada que o homem pudesse estar apenas
querendo tranquilizá-la.
-
Simples, o corpo dele não está aqui.
- E
desde quando isso exclui a possibilidade de ele ter se ferido ou morrido? –
perguntou a garçonete, os olhos saltados. Estava a ponto de ter um ataque de
nervos.
-
Esqueça isso, tenho certeza de que ele está bem, podem voltar para suas casas,
despreocupados. Quanto à senhorita, lamento pelo restaurante. Bem, podem me
levar para casa, tenho que me preparar para uma longa viagem – dizia o idoso,
com um sorriso no rosto.
Maria e
Carlos olhavam para ele, sem saber o que falar. Carlos sentia que não tinha
sido útil em nada e insistia em mandar no outro dia um grupo de homens para
olhar o local e procurar mais pistas sobre o que havia acontecido, e Maria não
se convencia de que o garoto estava completamente bem. Gavea ria dos dois e
mandava ambos pararem de se preocupar tanto, e insistia que deviam ir logo para
casa. Por fim, aceitaram a sugestão, por estar quase amanhecendo. Estavam
cansados e confusos. Entraram no carro e partiram pelo caminho de volta.
- Para
onde pretende ir, Gavea? – perguntou Carlos, enquanto dirigia. Maria também
parecia estar pensando sobre isso e deixou um ar de interrogação com seu olhar.
Ainda estava muito irritada.
Gavea
simplesmente retirou o envelope que havia recebido de Maria, abriu, e entregou
aos dois. Estava escrito:
“Se
chegar a receber isso de outra pessoa, saiba que estou lhe esperando, na cidade
W-1025. Tenho assuntos importantes para tratar com você.
Dante, filho de seu antigo aluno, Nicolau.”
Ou rapaz, não vai mais postar sua história.
ResponderExcluirÉ uma pena, pois eu estava gostando muito.