terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Capítulo I - Chuva



Dia 1º de janeiro de 2111. Era noite, o céu nublado anunciava a tempestade que logo viria. Relâmpagos desciam desenhando a escuridão, seguidos pelo rugido dos trovões. As folhas das árvores chocavam-se umas às outras, gerando um farfalhar que facilmente poderia ser confundido com murmúrios. O brilho da lua, filtrado pelas espessas camadas de nuvens cinzentas, quase não iluminava o ambiente. A pequena cidade W-1036 estava imersa na escuridão, exceto por um casebre afastado das outras casas. Suas paredes eram feitas de madeira envelhecida, em alguns pontos podres pela umidade e arruinadas por cupins. O telhado estava todo esburacado graças às ventanias constantes. Não possuía janelas, e a entrada era um portal grande e velho, onde portas também haviam sido arrancadas. Logo acima dele, havia um grande letreiro em neon: O Caravelas. Os sacos de restos de comida que se empilhavam próximos da porta, rodeados de moscas, davam indicações de que aquele lugar deveria ser um restaurante ou talvez um bar. O estado do interior da construção era tão lastimável quanto o da fachada. Era um espaço apertado, com algumas poucas mesas e cadeiras toscas, iluminado por apenas três lamparinas. Era madrugada, e o local estaria vazio, se não fosse um velho que bebia sentado no fundo escuro da pequena sala e a garçonete que lavava as vasilhas deixadas pelos clientes ao longo do dia.
Seus cabelos dourados e encaracolados desabavam sobre seus ombros. O uniforme se ajustava perfeitamente ao corpo esbelto, delineando-o. Usava uma camisa branca de botões, uma saia preta que ia até os joelhos, contrastando com os sapatos vermelhos de salto alto. Seu rosto era jovem, aparentava ter pouco menos que vinte anos. Os olhos, agora cansados, eram azuis como o mar. Suas mãos passavam o pano no metal frio das panelas quando ouviu as primeiras gotas de chuva. O ar frio da noite adentrou o recinto, causando-lhe calafrios e fazendo com que desviasse seu olhar para o portal. Seu coração deu um salto. Sentado nos degraus, tremendo com o tronco apoiado à parede, estava um jovem pálido e encolhido.
Normal. Essa palavra não se adequava àquele estranho. Seus olhos negros, profundos e penetrantes, vagavam pela rua, sem esperança. A chuva se tornou mais forte, e logo seus cabelos completamente brancos e seu corpo magro se encharcaram. Levantou-se, tentando se equilibrar sobre os membros fracos. Vacilou por um momento, como se estivesse tonto, mas logo se recuperou. Provavelmente, aquele adolescente, de pouco mais que dezesseis anos, havia passado noites abraçado aos joelhos, apertando a barriga fria que doía, reclamando da fome que lhe devorava por dentro. Entrou no restaurante e parou na frente do balcão sujo. A garçonete estava com medo. Aquela figura estranha parecia perigosa. Mantinha uma expressão dura, e suas roupas eram trapos: uma camiseta branca cavada e uma calça marrom feita de um tecido grosso, ambas imundas e rasgadas. Em seu corpo havia várias cicatrizes misturadas à sujeira e ao que parecia ser sangue seco.
- Ah... O que deseja? – perguntou a moça. A apreensão estava clara em sua voz, mas se o garoto percebeu, não deu mostras disso.
Os lábios secos do desconhecido se moveram, emitindo um som rouco. Tentava falar, mas parecia não conseguir. Estava emudecido. Baixou a cabeça, escondendo os olhos atrás da franja. A água escorria dos fios claros até a sua boca.
- Deve estar com fome e sede... Espere um minuto! – disse a garçonete, se apressando para pegar água, sobras de comida e um prato para o jovem.
Logo o balcão estava com uma jarra d’água e algumas tigelas de comida. Arroz, carne e farinha. Um banquete para o pobre condenado, que pegou os talheres lentamente. Suas mãos tremiam ao levar a primeira garfada até a boca. Passaram-se alguns minutos, e o garoto, escondido atrás do prato, ocupou-se apenas com a refeição. A mulher ficou observando-o. Um barulho veio do fundo do restaurante. O velho havia adormecido com a cabeça repousada sobre a mesa e a garrafa de cerveja na mão. Ela pensou em mandá-lo embora, mas achou injusto, uma vez que acolhera o jovem a sua frente. Deixou para cuidar dele mais tarde.
O visitante finalmente terminou de comer. Bebeu longos goles da água, e um filete do liquido transparente escorreu de sua boca até o peito. Colocou a mão na barriga e suspirou.
- Obrigado... – disse o menino, finalmente. Sua voz era profunda e parecia ecoar por todo ambiente, causando calafrios na garçonete – Bem... Não tenho dinheiro pra pagar por tudo isso.
- Não, não! Não precisa pagar pela comida, tudo bem – disse ela, tranquilizando-o. Não estava mais com medo. Pelo contrário, agora tinha uma estranha vontade de ajudá-lo.
Ele agradeceu com um movimento da cabeça. Tinha um aspecto melhor agora, sua pele havia ganhado um pouco de tonalidade, mas ainda parecia um tanto abatido. Ela lhe deu um sorriso, enquanto levava as vasilhas na pia.
Os minutos passaram, e a chuva ficava cada vez mais forte. A garçonete precisava ir para casa. Mas e o garoto? Não podia simplesmente enxotá-lo dali no estado em que estava.
- Estou atrapalhando, não é mesmo? – perguntou ele, olhando para cima, com uma expressão vaga.
- É claro que não, não precisa se preocupar... – respondeu, com medo de ser mal interpretada – Só estava pensando em algo que me aconteceu hoje...
- Não se preocupe, você foi atenciosa, não tem com o que se preocupar... Se quiser ir embora, não tem problema. Eu me viro.
Ela arqueou uma das sobrancelhas e olhou desconfiada.
- Como sabe que quero ir pra casa? Está tão na cara assim? Fui mal educada?
- Claro que não, você não fez nada, é que acabei lendo seu desagrado... – disse o outro, despreocupado.
- Como assim leu? – perguntou a moça, sem entender direito o que ele queria dizer com aquilo.
Ele apertou os lábios, como se percebesse que havia dito algo que não devia.
- Ah, não é nada importante...
- Não seja mal educado! Eu lhe dei comida, ao menos responda minha pergunta! - disse ela, ao notar que ele tentava fugir do assunto.
O garoto parou, como se pensasse se a mulher merecia uma resposta, mas, por fim, pareceu decidir que não podia fugir da pergunta.
- Bem, é complicado explicar esse tipo de coisa... Eu apenas senti suas emoções – respondeu com simplicidade – percebi que estava confusa e cansada, da mesma forma que senti seu medo assim que entrei no restaurante.
- O quê? É claro que não, eu...
- Já disse, não se preocupe. Eu só tenho a agradecer... – disse ele, fazendo uma reverência com a cabeça. A garçonete teve pena, mas também ficou inquieta com a conversa estranha que estava tendo. O menino sorriu – Você é indecisa... Uma hora tem medo, outra hora pena e, logo depois, volta a ter medo...
Espanto. Estava demonstrando tanto assim o que pensava? Não era possível que estivesse sendo tão óbvia a esse ponto. O jovem riu do rosto assustado dela.
- Ah... Por acaso está lendo minha mente? – acabou perguntando, mas logo se arrependeu. Como pôde dizer algo tão idiota?
O jovem parou e pensou por alguns instantes, o que a assustou. Se ele estava pensando seriamente, queria dizer que havia lógica na questão. Então ele realmente podia ler mentes? Ficou nervosa. Não, bobagem. Estava ficando paranóica, tinha que descansar, ultimamente andava trabalhando muito. Ela fitou novamente o outro. Ele passava os dedos pela madeira manchada do balcão, os olhos voltados para o chão. No fundo do restaurante, o bêbado emitiu um som que parecia ser a mistura de um ronco com um soluço. Uma mariposa passou a circular uma das lamparinas. Por fim, suspirou antes de responder.
- Sinceramente, não sei. Eu simplesmente sinto suas emoções como se fossem minhas. Não posso ser mais claro do que isso.
Ela engoliu em seco e observou o convidado com uma expressão intrigada. Uma resposta estranha. O medo que sentia dele voltou. E ela pedia, do fundo do coração, que ele não pudesse ler isso. Estava exposta.
- Parece ser interessante. Garoto, onde você mora? Não é aqui na W-1036, é? Pode arranjar problemas se perambular por aí sozinho, imagino. Não tem ninguém com você? Seus pais?
Os olhos e a face dele endureceram novamente, ainda mais do que quando entrara no restaurante. Voltou seu olhar para os pés, e ela não pôde mais ver seus olhos.
- Eu...
Antes que ele pudesse responder, uma das lamparinas se apagou. E depois a outra, e a última. O ar ficou pesado, e passaram a respirar com dificuldade. O velho havia desaparecido de sua mesa, e somente sua garrafa rolava no chão, de um lado para outro, vazia. A mariposa que circulava a luz, agora apagada, voou para fora do restaurante, mesmo com a chuva, e se perdeu na escuridão da noite.
- Droga, até aqui... Como não percebi... Qual seu nome? – perguntou o convidado. Estava de pé e agora parecia muito bem disposto. Os olhos, antes vagos e calmos, agora vasculhavam todo o restaurante, rápidos como um raio. Havia algo errado.
- M-maria... O que está acontecendo?
O tom de voz dela mostrava que estava ainda mais confusa do que antes. Por que o garoto estava tão preocupado? Por que as lamparinas se apagaram de repente? Seria o vento? Não, as lamparinas estavam bem protegidas contra o vento, e ela não sentia nem mesmo uma leve brisa lá dentro. Elas simplesmente apagaram.
Um estouro. O garoto pulou por cima do balcão, derrubando Maria no chão, bem a tempo de evitar que os estilhaços de madeira acertassem-na. Uma das mesas de madeira havia simplesmente sido destruída, lançando pedaços para todos os lados. A mulher procurava saber a origem da confusão, mas não era possível enxergar nada. Suas costas doíam pela queda repentina.
- Merda... Maria, eu preciso que faça uma coisa... – O garoto começou a vasculhar os bolsos da calça velha, até achar um envelope, que entregou para a mulher – entregue isso para um homem chamado Gavea, ele mora nesse vilarejo. Estou procurando-o faz algum tempo, mas não posso sair pelas ruas abertamente e...
- C-como assim? Por que isso tudo de repente? O que está acontecen...
- Por favor! Não faça perguntas, você tem que ir logo, isso é muito, muito importante. Você está em perigo aqui comigo, vá logo! – disse o garoto. Agora era ele quem parecia aflito.
- Está... Está bem!
Outra mesa explodiu, lançando mais estilhaços para todos os lados. As tábuas das paredes rangiam, como se fossem desabar a qualquer momento. O balcão começou a tremer, derrubando algumas vasilhas e talheres. A garçonete estava paralisada, tremendo.
- Isso é sério, você precisa ir! – disse o jovem, segurando os ombros dela e olhando no fundo de seus olhos. Ela sentiu a pressão esmagadora daquele olhar e pareceu finalmente notar a urgência do pedido. Começou a correr para a saída do restaurante. Quando estava na porta, porém, parou e olhou para o adolescente, abaixado atrás do balcão.
- Qual o seu nome?
Outra mesa destruída.
- Dante... Agora vá! – disse ele, fazendo sinal para ela se apressar.
Maria confirmou com a cabeça e correu para longe do restaurante, embaixo da chuva forte, o envelope apertado contra o peito. Por que estava fazendo o que um desconhecido havia mandado? Por que as mesas simplesmente se partiam em pedaços? Estava ficando louca? Não sabia, mas alguns minutos depois, ela poderia ouvir gritos de terror, vindos da direção do restaurante.

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