segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Capítulo III - Desespero


Fazia sol na cidade W-1025. Uma bela tarde para fazer um piquenique no parque, aproveitando o lago para se refrescar, pensou ela. Mas não, Dandara estava trancada dentro daquele Perglider preto. Era um carro caro, e havia sido desenvolvido pela Ferrari há pouco tempo. Era um dos poucos que possuía a nova tecnologia de planador, que no lugar das rodas, usava propulsores de ar que faziam o carro flutuar por volta de trinta centímetros acima do chão. O automóvel também tinha bancos macios, feitos de couro, e um frigobar com refrigerantes e doces para a garota comer. Seu design interior e exterior se parecia muito com o das limusines fabricadas um século atrás. Um sonho para muitos. Ainda assim, ela se sentia desconfortável em meio a tanto luxo. Preferia estar caminhando, sem se sentir uma patricinha mimada.
Também queria não estar usando aquele uniforme: uma blusa branca e apertada, com um suéter azul escuro e quente por cima, uma saia preta que ia até os joelhos, meias longas e brancas e um par de sapatinhos pretos de salto alto. Além daquilo tudo, usava um chapéu, também preto, que tinha um brasão prateado de uma coruja. Estava a caminho da IEFU, Instituto Estudantil Feminino da União. Era uma universidade criada pelo governo, apenas para garotas filhas dos altos comandantes. Lá se ensinava tudo que uma mulher rica deveria saber: regras de etiqueta, administração, astronomia, gastronomia, literatura, entre várias outras coisas. Com quinze anos de idade, a garota não sentia a mínima vontade de fazer nada disso. Tédio. Com essa única palavra, ela poderia descrever sua vida. Seu pai, dono da indústria bélica que abastecia o exercito global, a obrigava a frequentar aquela “escola”. Mas isso não queria dizer que ela simplesmente aceitava isso como uma boa garota. Sempre que podia, tentava fugir de lá e passava as tardes vagando pela cidade, geralmente se drogando. Não tinha muitos amigos, pois o pai achava que os adolescentes daquela cidade “não estavam no nível de sua filha prodígia”. Essa era a vida dela, cheia de palavras entre aspas, sem tempo para se perder em sonhos ou ilusões. Era excessivamente protegida, e graças a isso era excessivamente infeliz. Mal sabia aquela jovem princesa que as ilusões e os sonhos que todos viviam tentando afastar dela, estavam prestes a se tornar a mais pura realidade.
O Perglider parou. Estava em frente a um prédio de cinco andares, com uma arquitetura que impunha respeito, medo e admiração. Ninguém saberia dizer que estilo aquele prédio seguia, pois unia vários recursos estilísticos de civilizações de épocas passadas. Ela havia lido em algum lugar que, antigamente, o mundo era dividido em países ou nações, e cada país tinha sua própria cultura e costumes. Achava aquela ideia impressionante. Queria poder conhecer pessoas diferentes, lugares diferentes. Ela não teve essa oportunidade, pois desde que nascera os padrões culturais em todo o mundo já estavam uniformes. Os prédios eram todos feitos seguindo um padrão, as pessoas falavam apenas uma língua, a música seguia sempre as mesmas tendências. A cidade W-1025 era a mais liberal em relação a esses padrões, por ser a área de descanso da maioria dos funcionários do governo. Ainda assim, era possível encontrar algumas raríssimas lembranças dessas diferenças, como aquela a sua frente. Todas aquelas características, apesar de diferentes, interagiam de forma harmoniosa, fazendo daquele prédio único, até mesmo sagrado. Dandara sentia-se insignificante perto de tanta exuberância, e mesmo que odiasse estudar ali, era obrigada a admitir seu fascínio por uma obra de arte como aquela. Abriu a porta e desceu. Corou. Tinha vergonha de ser vista saindo de um carro como aquele. Criava a falsa ilusão de que era alguém diferente. O motorista veio correndo em sua direção.
- Senhorita! Eu deveria ter aberto a porta, me perdoe... – disse ele, ofegante. Dar a volta em um carro daquele tamanho e chegar a tempo de abrir a porta para a menina parecia ser uma tarefa cansativa.
- Não precisava se incomodar, Rodolfo... – disse, com o rosto ainda mais vermelho. Odiava aquilo de ter sempre alguém pra fazer as coisas para ela. Gostava de ter seu espaço.
Caminhou calmamente em direção à entrada da escola, o barulho do salto ecoando pela rua. Até mesmo aquilo a irritava. Subiu a pequena escadaria de pedra, e escorregou. Conseguiu se segurar no corrimão a tempo de evitar a queda, mas acabou ralando a mão graças à superfície áspera do mesmo. Mordeu o lábio, com raiva. Também odiava aqueles saltos, eram desconfortáveis e sempre causavam situações como aquela.
- Senhorita? Está tudo bem? – perguntou Rodolfo, retirando o quepe e fazendo menção de ir em direção à menina para ajudá-la.
- Está tudo ótimo, Rodolfo! Pode ir para casa – disse Dandara. Sua voz áspera demonstrava sua irritação.
Rodolfo assentiu com a cabeça, entrou no carro, e foi embora. Sabia que ela estava nervosa, então não se importou com a grosseria. Dandara se aprumou, mas não fez questão de entrar. Estava sozinha, Rodolfo já havia ido, e ninguém estava ali para vigiá-la. Poderia aproveitar a oportunidade para fugir da aula. Poderia, porém um pigarro chamou sua atenção.
- Está esperando alguma coisa, senhorita Dandara?
Roberta estava parada, olhando para a menina com um sorriso discreto. Um vento frio agitou os cabelos negros e lisos da jovem, fazendo-a gelar. Aquela era a diretora do instituto. Seus olhos negros pareciam atrair os olhos castanhos da garota como um imã. Dandara se sentiu angustiada. Seu corpo não se movia, muito menos sua boca.
- Estou esperando sua resposta – perguntou novamente a mulher. Apesar daquele sorriso e daquele olhar calmo, havia algo que parecia extremamente ameaçador irradiando de sua presença.
- N-nada, senhora Roberta... – disse a menina, os olhos ainda vidrados nos da diretora, a respiração um pouco ofegante. Estava pálida.
- Muito bem... – disse a outra, piscando rapidamente. No momento em que ela fez isso, Dandara pareceu conseguir de volta o controle sobre si – então entre de uma vez.
- S-sim senhora... – disse a garota, se apressando para entrar, desajeitada em cima dos saltos.
O salão de entrada era enorme. As paredes de mármore eram cobertas por tecidos vermelhos de seda, com vários desenhos em dourado e prata. O teto era uma abóbada, feita inteira com vidros de cores diferentes, de forma que a iluminação do recinto era feita pela luz natural. Havia uma bancada com cinco atendentes, cada uma com seu computador. Dandara já estava naquela escola fazia três anos, e ainda assim se encantava com aquela beleza que a oprimia. Mas não pôde ficar muito tempo observando. Caminhou com passos rápidos em direção a porta que dava para o corredor das alunas, do outro lado da sala. Podia sentir o olhar de Roberta fuzilando suas costas. Fechou a porta atrás de si, e de imediato se sentiu melhor. Longe da diretora, ficou leve, como nunca antes. Tudo naquela mulher parecia intimidá-la: seus cabelos ruivos, seus pequenos óculos de lentes arredondadas, sua aparência jovem unida com a elegância de suas roupas, e aquele olhar penetrante. Sentia um misto de medo e respeito, exatamente a mesma sensação que sentia admirando o colégio, intensificada várias vezes.
Seus pensamentos foram interrompidos pela conversa intensa do corredor. Dezenas de alunas andavam e falavam, todas uniformizadas, como Dandara. Muitos dos marechais promovidos mandavam as filhas para a escola, pois era a melhor de toda União. Tinha pesquisas e livros de todas as bibliotecas famosas do passado. Mas obviamente, o instituto não aproveitava todo material. As aulas eram sobre assuntos fúteis, apenas com o intuito de agradar as garotas, também fúteis, que se achavam donas do mundo. Dandara as odiava. Passou por todas, calada, alheia aos olhares antipáticos. Não dava a mínima. Na realidade, gostava de ser excluída, assim não era obrigada a tolerar as idiotices que elas achavam super interessantes. Foi na direção dos armários. Eram todos feitos de madeira nobre, com trancas banhadas a ouro. Ela não suportava todo aquele luxo. Com o dinheiro que gastavam com aquelas baboseiras, poderiam ajudar dezenas de pessoas necessitadas, pensou ela. Abriu e olhou o horário fixado na porta. A primeira aula era de História. Pegou seu caderno de anotações, seu bloco de desenhos e seu estojo, e caminhou em direção à sala.
- Sua estranha...
Quem havia dito aquilo era Patrícia, a menina mais implicante e metida dentre as outras. Outras duas garotas, que Dandara não conhecia o nome, riram atrás dela. Ela não deu importância para o insulto infantil, e continuou seu caminho, ignorando os olhos que insistiam em tentar abalá-la.
O professor ainda não estava em sala. Dandara caminhou calmamente para o fundo, onde ficava isolada das outras garotas. Sentou-se ao lado da janela ampla. O recinto era luxuoso como toda a escola. As carteiras tinham estofamento e mais pareciam poltronas com mesinhas grudadas na frente. No lugar do quadro, havia uma enorme televisão, ligada a um computador, que já estava ligado para aula. A menina, cansada de esperar, se sentou relaxada na cadeira, se esquecendo da etiqueta exigida na escola, e olhou através da janela. De lá podia ver o parque da cidade. Várias árvores, uma calçada para caminhada, um bosque de arvores relativamente grande, que mais parecia uma pequena mata, e o lago, límpido. Uma bomba fazia jorrar água para o alto, em seu centro. Várias pessoas caminhavam, casais estavam deitados na grama, alguns liam em seus e-books, e havia até mesmo um ou outro aventureiro pulando na água, por diversão. Daria tudo para estar ali, bem longe daquela escola idiota, pensou ela. Ouviu passos ecoando pelo corredor, em meio ao ruído da conversa do lado de fora.
O senhor Renato entrou na sala, carregando sua maleta. Tinha cabelos grisalhos e usava uma barba mal feita. Estava com uma camisa branca, um sobretudo azul marinho, junto à sua calça escura e os sapatos pretos bem engraxados. Sentou-se à mesa do computador, impaciente, organizando sua aula do dia, enquanto esperava as outras alunas entrarem em sala. Pareceu não notar nem rastros de Dandara no local. Ela também o ignorou. Logo as demais garotas entraram aos grupinhos, rindo e conversando, mas assim que notaram o professor, calaram-se imediatamente e foram para seus lugares. Renato era extremamente intolerante com desatenção durante suas aulas. Passados alguns momentos, ele se levantou. Pôde contar pouco mais de vinte lugares ocupados. A sala estava completa.
- Hm... Bom dia a todas, senhoritas – disse ele, folheando algumas anotações. As garotas retribuíram o cumprimento, exceto Dandara, que ficou calada – Bem... Hoje vamos falar sobre a Terceira Guerra. Respondam-me, alguém sabe me dizer foi o principal fator que serviu como estopim para que esse conflito se iniciasse?
Silencio. Algumas alunas se entreolharam, mas ninguém ousou falar.
- Hm... Ninguém? – ele olhou para a sala, desgostoso, o rosto impaciente. Viu Dandara, sentada no fundo, sozinha, e isso pareceu chamar sua atenção – senhorita Dandara?
Toda atenção da sala se voltou para a garota. Ela estava olhando pela janela, absorta com algo estranho do lado de fora, e foi pega de surpresa. Olhou para todos, desconcertada, procurando algo em sua cabeça que pudesse agradar o professor. Patrícia deu um sorriso maléfico.
- Ah... – ela se demorou, pensando. Por fim, teve coragem de dizer – Bem, foi uma disputa entre a antiga potência mundial, Estados Unidos da América, e vários países do oriente médio, por petróleo.
Ele balançou a cabeça, decepcionado com a resposta simplista. Dandara ficou vermelha. Odiava esse tipo de situação.
- Dandara, você já tem conhecimento o bastante para elaborar respostas mais completas... A Terceira Guerra se iniciou após o roubo da Bomba H3 da Rússia. Diga-me, que país roubou a bomba?
- Ah... Israel?
- Errado. País nenhum roubou a bomba. Quem realizou o roubo foi uma organização terrorista, que apesar de ter se formado anonimamente em Israel na época, não era aliada dos países do Oriente Médio, e queria apenas gerar ainda mais discórdia entre ambos os lados, para que se destruíssem. Denominavam-se a Mak Ün. Não se sabe o significado da palavra, mas imaginamos que fosse um tipo de código. Sua principal meta, aparentemente, era o fim do mundo. Mas antes mesmo do roubo da bomba, já existiam motivos para a disputa, como você disse, Dandara. Os EUA queriam a grande quantidade de petróleo que havia sido encontrada no subsolo desses países em 2015. Foram descobertas ainda mais reservas, que junto às que já haviam sido descobertas anos antes, representavam mais de 80% de todo volume de petróleo do mundo. Uma quantidade absurdamente grande. E assim que descobriram isso, os Estados Unidos, que já haviam tido conflitos com essa região por petróleo, retomaram os ataques ao Oriente Médio, gerando uma explosão de disputas sangrentas... – ele pausou a explicação por um momento, clicou em algo no computador, e logo a televisão exibiu os vídeos que ele havia preparado para a aula. Enquanto isso, ele narrava as cenas – Os americanos lançavam ataques aéreos, bombardeando cidades. Isso obrigou as vitimas a unir seus governos, e se aliar aos terroristas, formando o que chamamos de Aliança Oriental. Em maio de 2017, um avião monomotor, lotado de bombas, se chocou contra a casa branca, mas o presidente já não se encontrava lá. Isso enfureceu os americanos. As batalhas se tornavam cada vez mais sangrentas, com o passar dos anos. A Aliança estava cada vez mais pobre, com seus territórios mais destruídos, e a população americana cada vez revoltada contra seu governo, que colocava inocentes em risco pelo petróleo, e mandava os jovens para morrerem na guerra.
Dandara estava agora completamente atenta à aula. Isso era raro, mas compreensível, uma vez que assuntos de antes da União sempre a interessavam. E não apenas a ela, pois todas as alunas estavam caladas, prestando atenção no discurso do professor e nos vídeos. Eram imagens fortes, centenas de mortos baleados, bombas caindo sobre cidades e matando inocentes. Era impossível imaginar como isso poderia se tornar pior. Renato pausou os vídeos.
- Eis então que, por volta de 2019 e 2021, em meio a toda desgraça, a Mak Ün surgiu nas sombras... Ela aparentava ser apenas um grupo de revoltados com ideias insanas. Mas logo mostrou que era bem mais do que isso. Eram especialistas em invasão de bases militares. Seus terroristas se infiltravam como membros das forças militares, reconheciam a segurança, e por fim rendiam e matavam os comandantes, lideres, e oficiais de alta patente, criando uma enorme desorganização no sistema de hierarquias, que deixava os soldados vulneráveis e sem rumo. Utilizando dessa tática, invadiram um dos portos da Aliança Oriental e roubaram seis navios de guerra e um submarino espião, desenvolvido na Coréia, e partiram em direção ao oceano. Seu novo alvo era um porta-aviões da marinha dos Estados Unidos. Assim que se aproximaram, os navios que defendiam a enorme embarcação concentraram seus ataques aos navios de guerra orientais, enquanto o submarino, que era invisível aos radares, se aproximou mais, e atirou um torpedo. A inesperada explosão deixou os navios de defesa confusos, e acabaram sendo dizimados pelos tiros das embarcações inimigas, e pelos projéteis do espião marinho. Um dos barcos foi até o porta-aviões, que continha vários Boeings B-52, aviões bombardeiros, todos munidos com bombas de queda livre. Decolaram seis deles, sendo que dois sobrevoaram Nova York, lançando três bombas dentro da cidade antes de serem abatidos. As outras quatro aeronaves não foram encontradas. O evento ganhou grande repercussão na mídia, e foi atribuído à Aliança Oriental, que nada tinha a ver com o ataque. Logo os EUA intensificaram o bombardeio às cidades do Oriente Médio. Até aí, a Mak Ün ainda não havia sido descoberta, nem tinha demonstrado suas reais intenções. Foi então que invadiram uma base militar russa, onde a Bomba H3 estava sendo estudada. A Rússia estava criando essa arma em segredo, após o mundo ter descoberto, em 2018, que os EUA tinham criado a Bomba H2, uma bomba de hidrogênio ainda mais poderosa que as testadas anteriormente, e ainda mais poderosa. Hoje em dia, os estudiosos descobriram que a Bomba H3 tinha mesmo potencial de destruição que a H2 dos EUA, e apenas uma delas já poderia destruir um planeta com mesmo tamanho de Júpiter.
Ao terminar a última frase, ele sorriu dos olhares perplexos das alunas. Dandara não conseguia imaginar porque alguém criaria uma arma assim. Mas então teve uma dúvida.
- Professor, como a Mak Ün sabia da existência da bomba?
O professor olhou pra ela, com uma sobrancelha arqueada.
- Ninguém sabe, da mesma forma que não sabemos da origem do grupo. Tudo relacionado a eles é uma incógnita. Só sabemos do resultado de suas ações, que influenciaram o mundo inteiro.
Dandara soltou um suspiro de decepção. Quase um século depois do desastre, e não sabiam absolutamente nada?
- Mas enfim... Onde eu havia parado... Ah sim, os terroristas foram até a base militar, e se infiltraram. Logo, havia integrantes da facção tanto no sistema de segurança, quanto no grupo de pesquisadores e cientistas que estudavam a bomba. Por fim, acabaram rendendo os russos, quando os integrantes infiltrados ameaçaram detonar a bomba dentro da base. Fizeram com que todos ajudassem a lançar o projétil em direção aos EUA. Acontece que a bomba era tão grande, que não podia ser transportada em aviões, e necessitava ser lançada como um foguete para fora da atmosfera, para só então iniciar a re-entrada na mesma e atingir o alvo. Isso fez com que a preparação para o lançamento demorasse algum tempo, permitindo que um agente americano, também infiltrado, contatasse o Pentágono para avisá-los. O governo dos EUA entrou em pânico. Não sabia como se defender do perigo iminente. Eis então que, para evitar a tragédia, decidiram detonar a bomba assim que ela saísse da atmosfera. Por sorte, os Estados Unidos tinham um sistema de lançamento para sua Bomba H2 e o utilizaram para lançar um projétil com uma bomba atômica. Assim que a base russa lançou a Bomba H3, eles lançaram o “anti-bombas” em rota de colisão com o outro foguete. Deu certo. A explosão foi tão forte, que mesmo estando no espaço, grande parte do planeta pode ver uma esfera de luz surgindo no céu. E não apenas isso, parte da radiação emitida entrou na atmosfera, e ainda hoje, há indícios de doenças causadas pelo incidente. O que vocês acham que aconteceu depois disso?
Todas ficaram caladas. Dandara então resolveu arriscar:
- Cessaram os conflitos? Não é possível que tenha havido ainda mais luta após tudo isso...
Renato deu uma risada e balançou a cabeça negativamente.
- Claro que não... Você acha que os Estados Unidos, a maior potencia mundial da época, iria deixar um ataque desses sem punição? Não, não... Quem vocês acham que sofreu as consequências?
- A Mak Ün? – arriscou a menina novamente.
- Não. Logo após a explosão da bomba no espaço, quatro aviões bombardeiros americanos explodiram toda base militar russa. Porém os americanos não haviam ordenado o ataque, pois o agente infiltrado havia dito que os russos não tinham comandado o ataque. Hoje alguns afirmam que quem pilotava os aviões eram integrantes da Mak Ün.
- Mas porque eles matariam seus próprios aliados? – perguntou novamente a jovem. Nunca tinha participado tanto de uma aula, pensou o professor, sorrindo.
- Por quê? Para não deixar nenhum rastro do crime, e dessa forma não serem descobertos. Se descobrissem que era armação, a guerra acabaria, e ambos os lados iriam se voltar contra o grupo. Um fato que comprova que provavelmente a destruição da base foi feita pela própria Mak Ün é que os bombardeiros eram Boeings B-52, exatamente as mesmas aeronaves que haviam sido roubadas do porta-aviões americano sequestrado por ela.
"Mas enfim, continuando de onde eu havia parado... Quem levou crédito pelo ataque foi, obviamente, a Aliança Oriental, por estar aliada aos terroristas. Na verdade, o governo dos EUA já desconfiava que pudesse ter sido alguma outra organização que não estivesse participando da guerra, mas optou por atacar a Aliança, usando deste pretexto, para enfim conseguir o petróleo. Mandaram um grupo de aviões, que dizimaram completamente o Oriente Médio com nada menos que sete bombas atômicas. Mesmo não sendo nada comparado à Bomba H2, foi uma destruição monstruosa, que deixou o mundo abismado. O território ficou completamente devastado."
Dandara estava inquieta. Todas essas mortes por tão pouco?
- Eu sei o que está pensando, senhorita... Realmente, é uma barbaridade. A maior guerra de todos os tempos foi feita pelo motivo mais banal de todos os tempos. Mas sim, é exatamente isso, a Guerra Nuclear teve como motivo apenas o petróleo. Pra vocês, isso pode não ter valor hoje, uma vez que temos incontáveis formas de energia sustentável, mas naquela época, o petróleo ainda era uma das fontes de energias mais importantes do mundo, e seu valor absurdamente alto.
A sala ficou silenciosa. As garotas sussurravam entre si, comentando a explicação. Renato pediu para todas que anotassem em seus cadernos agora suas conclusões sobre a aula. Enquanto isso, Dandara, absorta em seus pensamentos, desviou seu olhar para a janela ao seu lado.
Uma cena estranha se desenrolava lá fora. Na rua, entre o parque e a sede da instituição, estava um automóvel, movido a propulsores de ar, como o Perglider, porém muito mais robusto, parecia blindado, e no lugar do porta-malas, havia uma espécie de gaiola. Era preto, tinha metralhadoras acopladas abaixo dos retrovisores, e sirenes. Um carro militar. E na entrada do prédio, dois soldados estavam parados, conversando com ninguém menos que Roberta. Ela balançava a cabeça negando algo. Parecia um tanto irritada, e mesmo os soldados pareciam não querer contrariá-la. Contudo, ela pareceu se acalmar, e permitiu que os soldados entrassem. Estranho. O que o exército queria no colégio afinal? Dandara não sabia dizer. Passou os olhos novamente pela viatura, e notou algo estranho.
Olhos vermelhos, olhando diretamente para ela, através dos vidros escuros. Estavam na parte de trás, dentro da gaiola do automóvel. Brilhavam estranhamente. O que seria aquilo? Aproximou os olhos do vidro, pra tentar enxergar melhor, porém os pontos de luz vermelhos desapareceram. Estranho, pensou.
“Socorro...”
Seu coração deu um salto. De onde veio aquela voz? Olhou para os lados, assustada, mas após um olhar de Renato, se aquietou, e fingiu que estava escrevendo.
“Socorro, por favor...”
Outro susto. A voz estava em sua cabeça. Ecoava pelo seu crânio, como se fosse um pensamento. Seria um espírito? Estava com medo. Respirou fundo, e olhou novamente para a janela. Viu novamente, dois globos oculares brilhantes.
"Eu estou morrendo..."
O suor frio escorreu pelo seu rosto. Havia algo dentro daquele carro, e precisava de ajuda.
- Professor, por favor.
Na porta da sala, estava a diretora, com os dois soldados atrás de si. Renato empalideceu. Levantou-se lentamente e foi em direção à porta. As adolescentes observaram, curiosas.
- Continuem escrevendo – mandou Roberta. As canetas voltaram a riscar o papel, deixando claro que não iriam se meter no que não deviam. Porém, os olhos de Dandara continuaram fixos na porta.
Os adultos falaram baixo, para que as alunas não ouvissem. Porém Dandara continuou alerta, e por fim, Renato acabou exclamando em tom mais alto:
- Não podem me prender apenas por isso... Eu estava apenas contando a história...
Um dos soldados o interrompeu com um soco na boca do estomago, fazendo com que o professor soltasse um gemido de dor. Algemou-o e pediu para o colega que o conduzisse até o carro. Continuou a conversar com a diretora quando o outro saiu, levando Renato. Roberta continuou estranhamente calma, mas as alunas não conseguiram se conter.
- Senhora, porque o professor está sendo preso? Ele não fez nada!
- Sim, eu aposto que deve ser algum engano!
- Caladas! Voltem a fazer anotações, agora! – bradou a diretora, que estava irritada. Não adiantou completamente, mas fez com que as garotas fizessem menos barulho.
Ela continuou falando com o oficial, até que ele em certo momento disse algo em seu ouvido, com um sorriso sarcástico no rosto. Dandara pôde ver de relance ele acariciando os seios da mulher. Então algo aconteceu e sua visão se distorceu, como se estivesse tonta, e quando se recuperou o policial havia se afastado segurando a mão, gemendo de dor. A meina sentiu um calafrio, e notou que as outras garotas pareciam estar sentindo o mesmo, apesar de nenhuma delas parecer ter visto o que aconteceu.
- Isso é pra aprender a ter respeito. Não dou a mínima pra esse professor, e não irei fazer favor nenhum ao senhor para que o solte. Já pode ir embora da minha escola. - disse a diretora, em tom firme.
Dandara estava calada, observando tudo. Não pode ver o que Roberta fez com a mão do pervertido, mas achou tudo muito estranho. Não entendia nada que estava acontecendo. Estavam prendendo o professor pelo que tinha dito em sala? Então era crime falar sobre a Terceira Guerra? Curioso... Será que havia algo que não poderia ser revelado a todos? Muitas perguntas, nenhuma resposta. A única coisa que a menina sabia é que tinha de ajudar o professor e o estranho de olhos vermelhos. Em sua cabeça, o pedido dele continuava a ecoar, baixo, quase inaudível. Já não sabia se estava imaginando, ou se ele continuava chamando.
- Eu já não disse para ficarem caladas?
As outras alunas voltaram a cochichar devido ao incidente com o policial. Um bando de frescas, pensou Dandara. Uma delas se levantou.
- Por que o professor Renato foi levado, diretora?
- Não é da sua conta, Patrícia. Faça o favor de se sentar. – falou a mulher, em tom áspero. Normalmente, ninguém ia contra sua vontade, mas outras duas garotas também se levantaram. Eram as mesmas que estavam com Patrícia no corredor.
- Vocês não podem fazer isso!
- É verdade, o Renato é o melhor professor do colégio!
Dandara era obrigada a concordar. Apesar de não gostar de nenhum dos professores, Renato era o menos pior. E hoje a aula havia até sido interessante, algo raro. O restante das alunas também se levantou, pedindo para que soltassem seu professor. Tolas, não iam conseguir nada assim, pensou. Porém estavam distraindo a diretora, e isso era ótimo. O soldado havia deixado Renato no carro e entrado novamente no prédio. O carro estava sozinho. A garota abriu a janela lentamente. Coração acelerado. O vento batia suavemente contra seu rosto, como se estivesse convidando-a. Ela costumava ter idéias excessivamente estúpidas, ou talvez excessivamente brilhantes. Estava no segundo andar, e abaixo da janela estava o telhado do primeiro. Tirou o sapato de salto alto que tanto lhe incomodava e colocou o chapéu na mesa ao lado. Passou a perna para o lado de fora lentamente. Depois a outra. Por fim desceu, e ficou de pé sobre as telhas de barro. Era obvio que Roberta havia percebido. Porém estranhamente não fez absolutamente nada, e fingiu estar ocupada com as outras alunas. A jovem não questionou, apenas caminhou o mais rápido que podia sem quebrar nada. Chegou até o beiral próximo à entrada do colégio. Os arbustos que enfeitavam o jardim poderiam amortecer a queda. Pulou sobre o que parecia ser mais “macio”.
Os galhos arranharam sua pele, mas por sorte não se machucou. Levantou-se e limpou as folhas presas à roupa, enquanto caminhava em direção à rua. A calçada estava quente graças ao sol. Dandara caminhava na ponta dos pés, dando pulinhos, para não queimá-los. A viatura estava logo ali. Foi até a porta traseira, e espiou perto do vidro. Renato levou um susto. Ela sorriu, achando graça. Não podia ouvir o que ele dizia por causa do vidro, mas percebeu que estava pedindo para tirá-lo dali. Ela puxou a maçaneta, e a porta se abriu, sem nenhuma dificuldade.
- Ué? Não trancaram? – perguntou surpresa.
- A porta só abre pelo lado de fora – explicou ele, saindo apressado do carro, desajeitado por estar algemado – vamos, precisamos sair daqui de uma vez, antes que percebam - O suor escorria até sua barba mal-feita. Estava nervoso.
- Calma, preciso tirar uma pessoa que está dentro da gaiola... – disse ela, se lembrando dos pedidos em sua mente.
- Ficou maluca? Ai atrás só tem um cachorro, que parece estar muito doente...
Ela abriu o porta-malas e realmente, dentro da gaiola, só havia um cão negro. Ele abriu os olhos e voltou-os na direção da jovem. Eram ainda mais vermelhos de perto e, por incrível que pareça, mais brilhantes. Pareciam duas lanternas. Ela ficou com medo.
- Por que os olhos dele... Por que são tão vermelhos?
- Hã? Do que está falando?
Ela olhou para Renato. Ele parecia não estar vendo nada de anormal no bicho. Será que estava ficando louca?
“Socorro...”
Teve um calafrio. A voz agora estava muito mais intensa. Olhou para o animal, e ele retribuiu o olhar. Um olhar sábio, racional. Não era simplesmente um cachorro. Era algo mais. Podia sentir. Foi até a grama, e catou maior pedra que encontrou. Começou a batê-la na tranca das grades.
- Você ficou louca Dandara? Não faça tanto barulho, vão acabar percebendo... Vamos embora logo... – sussurrou Renato, tentando fazê-la parar. As pessoas do parque começaram a olhar a cena estranha: uma menina arrombando uma viatura, junto a um homem algemado, para salvar um cachorro. Intrigante.
Um estalo. A trava caiu no chão, e a menina largou a pedra. Tentou abrir a gaiola, mas levou um empurrão, e acabou caindo no chão, ralando o braço no asfalto. O cão, na pressa de se ver livre, empurrou a porta que bateu na garota. Só foi possível ver uma mancha negra fugindo, veloz, em direção às árvores do parque.
- Droga... Eu ajudo, e é assim que agradece? – exclamou a menina, com a expressão fechada.
- Hei! O que aconteceu aqui?!
Os soldados estavam na porta do instituto. Quando viram o prisioneiro do lado de fora do carro e a gaiola aberta, ficaram sem reação. Porém não demorou para que se recompusessem do susto, e logo correram em direção da viatura.
- Parados!
Renato ajudou Dandara a se levantar, e começaram a correr também, na mesma direção que o cachorro havia ido. Um dos oficiais retirou uma arma elétrica do cinto, e mirou em Renato.
- Argh!
O professor caiu no chão, se contorcendo. Em suas costas, estava presa uma pequena garra de metal, que deveria estar lhe dando choques, causando os espasmos. A menina parou por um momento, preocupada, querendo ajudá-lo.
- Não! Vá de uma vez, senão vai ter problemas! – gritou o homem, ainda se debatendo, abanando as mãos atrás da cabeça, tentando tirar o projétil do corpo. Os soldados já estavam se aproximando.
Ela correu, em meio às pessoas assustadas. As meias estavam sujas de terra quando finalmente chegou às árvores. A mata era fechada, mas não o bastante para escondê-la para sempre. Tinha que pensar pra onde iria.
Escondeu-se no meio de algumas árvores, e deitou-se. Pôde ouvir o som dos sujeitos correndo pela terra, procurando-a. Por sorte, passaram direto pelo esconderijo, indo mais para o centro do bosque. Ela relaxou os músculos e olhou para o céu azul.
Aquele sol animava todo seu ser. Passou alguns segundos apenas olhando as nuvens, e aproveitando o vento fresco. Não queria mais voltar para aquela escola. Mesmo que precisasse fugir de casa, não voltaria, pensou ela. Mas então seu raciocínio foi interrompido bruscamente, quando se lembrou do cachorro. Sentou-se e olhou ao redor.
E lá estava ele, alguns metros adiante, deitado na sombra de uma árvore. Dandara se levantou e foi em sua direção, cautelosamente. Ele era grande, um vira-latas. Parecia doente. Estava magro, as costelas a mostra por baixo do couro, os pelos negros sem brilho e caindo. Tinha a expressão abatida e a respiração desregulada. Os olhos brilhantes se moviam de um lado para o outro, como se o cão estivesse tendo algum tipo de crise. Uma pessoa qualquer teria medo, mas Dandara sentiu pena do animal. Encostou a mão no pescoço dele timidamente, tentando animá-lo.
Dor. Assim que tocou o pêlo frio do cão, sentiu seu peito queimar. Era como se seu coração estivesse explodindo, e sua alma estivesse lutando para permanecer em seu corpo. Começou a tremer. Seus olhos se reviravam, e ela tentava gritar, em vão. O berro morria na garganta, que havia se fechado, impedindo a entrada de ar para os pulmões, fazendo com que ficasse sufocada. Ela sentia o terror dominando sua mente, e a morte se aproximando. Tentava tirar a mão do animal, mas estava presa por alguma força invisível. O que era aquilo? Não sabia dizer. Enquanto isso, o cão, como que por mágica, parecia melhorar consideravelmente. Seus pêlos recuperaram o brilho. Não estava mais caquético. Seus olhos cor de sangue iam de encontro aos de Dandara. Fosse o que fosse, o animal estava se alimentando da energia vital daquela garota. O sol que ela tanto amava começou a se distanciar. Tudo estava ficando escuro. Não queria isso. Mais alguns segundos, e seria seu fim.
Seria. Mas uma mão milagrosa resolveu ajudá-la, e o cão foi jogado longe, ganindo. Tudo que Dandara pode ver antes de desmaiar foi um vulto parado a sua frente. Seus cabelos eram brancos como a neve.
Dante estava sem camisa. Sua aparência estava ainda pior do que antes, quando apareceu n’O Caravelas. Estava mais pálido, e parecia ter emagrecido ainda mais. Provavelmente, naquela semana que havia se passado, após o incidente no restaurante, ele não havia comido mais nada. Ainda assim, seu olhar continuava irradiando uma espécie de poder estranho e intimidante. Em seu ombro, havia uma cicatriz enorme, que parecia recente. Um casal que havia entrado ali há pouco tempo, olhava a cena sem entender o que acontecia. O garoto olhou para a menina caída, preocupado com o que poderia ter acontecido. Estava pálida, ainda mais do que ele. Colocou a mão sobre sua testa. O rápido contato com o cão havia feito a temperatura dela subir consideravelmente. Dante fixou os olhos no cão, a expressão fria.
O animal se levantou, e sustentou o olhar do jovem. Não por muito tempo. Logo abaixou a cabeça, e os olhos brilharam ainda mais intensamente, e com um clarão de luz, a figura misteriosa desapareceu, deixando Dante sozinho, junto à garota desmaiada. Ele se virou e pegou Dandara do chão. Os membros finos conseguiram erguê-la com extrema facilidade. Ele saiu caminhando, os pés descalços no asfalto quente. Pra onde ia? Talvez nem mesmo ele soubesse.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Capítulo II - Grito



Carlos era um senhor de idade já avançada. Tinha a cabeça quase que completamente careca, e os poucos fios de cabelo que possuía eram brancos. Sua pele era tão oleosa, e seu físico era tão avantajado, que poderia facilmente ser confundido com um porco em trajes finos. Apesar da aparência não muito intimidadora, por baixo das roupas, ostentava diversas cicatrizes da guerra. Ele havia passado anos difíceis e, após a grande unificação, foi encarregado de cuidar da cidade W-1036. Com isso, ganhou certos privilégios, como sua casa, que era de longe a mais luxuosa da região, e sua cama uma das mais confortáveis. Não parece ser muita coisa, mas pra um homem que batalhou por anos em meio ao terror, nada melhor do que o descanso.
E lá estava o senhor, deitado, dormindo profundamente. O dia havia sido difícil, afinal, mesmo sendo pequena, a cidade tinha muitos problemas, e cuidar de todos eles era bastante trabalhoso, ainda mais tendo uma tropa de apenas cem soldados. A taxa de criminalidade tinha aumentado nos últimos anos. Aquelas mudanças haviam desorganizado todo o sistema, e o lado podre da sociedade estava se aproveitando da situação. A cada dia, mais conflitos aconteciam por todo o mundo. Fora que precisava coordenar as fiscalizações ao comércio, montar a tabela diária de preços, mandar relatórios para o Grande Trono, e ainda tinha de cuidar do bem-estar da população. Tinha pena das famílias, que nada tinham a ver com aquilo tudo, mas eram as que mais sofriam as consequências. E quanto mais pensava nisso, mais seu cérebro ficava exausto. Por isso, esqueceu o mundo e se preocupou apenas com seu descanso. Provavelmente ele teria dormido até tarde do dia seguinte. Apenas provavelmente, pois durante a madrugada um bater de palmas em sua porta substituiu o som constante da chuva e acabou despertando-o.
Levantou-se, o rosto sonolento e vermelho, o pijama de bolinhas apertando-o na região da barriga. Andava lentamente até a porta do quarto, coçando a bochecha lisa enquanto dava um bocejo demorado, deixando o cheiro do álcool que havia ingerido antes de dormir se espalhar por todos os lados. As palmas do lado de fora não paravam, frenéticas, apressando o senhor. Demorou ainda mais algum tempo até chegar à porta da sala, e quando a abriu, já estava sem paciência com tanto barulho do lado de fora.
- Quem é? Não sabe que horas são? – perguntou o velho, com a cara rabugenta, ao abrir a porta. Mas assim que viu as duas figuras femininas assustadas a sua frente, molhadas da cabeça aos pés pela chuva, abriu espaço para entrarem. – O que aconteceu Dulce?
- Senhor Carlos! Ela não está bem!
Dulce era uma mulher negra e alta, bonita, cabelos cacheados e olhos castanhos claros. Usava pijama e parecia ter saído da cama há pouco tempo, exatamente como Carlos. Apoiada em seus ombros, estava Maria. Seus cabelos loiros estavam completamente bagunçados, talvez pela água da chuva. A maquiagem estava borrada, graças a uma mistura uniforme da água com as lágrimas que rolavam pelo seu rosto. Sua face demonstrava medo, o mais puro medo.
- O que aconteceu, Maria? Dulce! Pegue um copo d’água na minha cozinha, por favor, eu cuido dela – pediu Carlos, tomando Maria em seus ombros e conduzindo-a até um sofá da sala. Pegou duas toalhas em um armário, e com uma envolveu a mulher, que tremia de frio.
Dulce voltou com o copo nas mãos, a expressão preocupada. Carlos lhe cobriu também com a outra toalha e pegou a água. Deu pequenos goles para Maria, sentada no sofá, enquanto passava a mão em suas costas, tentando consolá-la não sabia do quê. Ela respirou fundo. Sua mão direita tremia, e nela estava amassado entre os dedos um envelope molhado.
- U-um garoto... Dante... Perigo... No restaurante... – gaguejou a mulher, em choque. Apertava o envelope cada vez mais forte.
- No Caravelas? – perguntou Carlos, aflito.
Maria balançou a cabeça positivamente, e agarrou o homem pelo pijama, os olhos azuis olhando no fundo dos dele.
- Precisamos... Entregar... Antes... – disse ela, apertando o envelope contra o corpo dele, enquanto segurava o pijama do senhor.
- Ok, ok... Dulce, pode voltar para casa, obrigado, vou ajudar Maria e descobrir o que está acontecendo... – disse, levantando-se e ajudando a jovem trêmula a fazer o mesmo. Foi até a mesa e pegou as chaves do carro.
- Tudo bem... Quando voltarem, me liguem para dar notícias, não quero ficar preocupada. Teria um guarda-chuva? Depois eu devolvo...
Carlos pegou um guarda-chuva preto e entregou à mulher, que saiu da casa. A chuva já estava mais fina agora, e ele e Maria correram para o carro, um Camaro, ano 2010. Ela ainda estava em choque, mas já parecia mais calma.
- Ok... Pra onde você tem que levar o envelope? – perguntou o homem, tentando ligar o carro. Tudo bem que gostava de clássicos, mas, às vezes, desejava ter um carro com ignição digital. Sempre se embaralhava com as chaves.
- Eu não sei... Um homem chamado Gavea – disse ela, olhando para o envelope amassado. Tinha finalmente dito uma frase completa, pensou Carlos.
- Gavea? É meu parceiro de canastra! Jogamos toda semana... A casa dele é aqui perto, vou te levar até lá.
Ele deu ré no carro para sair da garagem. Durante o caminho, a mulher ficou com a cabeça encostada no vidro da janela do carro, pensativa, ainda tremendo. As trovoadas continuaram, mas até chegarem ao destino, a chuva finalmente havia acabado. Pararam em frente a uma casa simples. Tinha as paredes brancas e janelas e portas de madeira, pintadas de azul. Havia várias samambaias pelo jardim, todas bem cuidadas. O dono da casa parecia dedicar boa parte de seu tempo às plantas.
Saíram do carro e caminharam até a porta. A maçaneta tinha detalhes estranhos, várias estrelas, e, no centro, uma espécie de circulo com uma seta dentro. Maria ainda parecia abalada. Carlos tinha esperanças que ela explicasse o que havia acontecido. Tocaram a campainha, mas parecia estar estragada, então bateram. Momentos depois, a maçaneta adornada girou, a porta se abriu com um rangido, e viram a sua frente a figura de um velho.
Gavea era idoso, assim como Carlos, porém tinha uma aparência muito mais interessante. Possuía cabelos curtos e prateados e uma barba grande da mesma tonalidade dos cabelos, que ia até o peito. Usava um pijama xadrez, e seus olhos, de um tom cinza bem claro, os encaravam com certa calma, contrastando com o fuzil que carregava em suas mãos. Tinha a expressão fechada e preocupada.
- Gavea! Velho amigo, como é bom lhe ver! – disse Carlos, com um sorriso aberto, mostrando que vários de seus dentes já não estavam mais lá. – Desculpe lhe incomodar a essa hora da madrugada, mas...
- Me conte sobre os gritos, rápido – interrompeu o outro idoso. Os olhos dele estavam fixos em Maria.
A mulher parecia com medo da recepção consideravelmente agressiva do senhor. Porém pareceu reunir coragem o suficiente para responder.
- O senhor ouviu os gritos também? Viu aquelas imagens horríveis? – perguntou Maria. Sua expressão estava apavorada, da mesma forma que antes, quando chegou apoiada nos ombros de Dulce.
- Sim... Ouvi, mas não cheguei a ver as imagens, graças à proteção da minha casa... Mas percebi que meus talismãs estavam queimados – disse Gavea. Carlos estava totalmente deslocado na conversa. Maria pareceu confusa sobre os “talismãs”, mas ignorou a dúvida.
- Gritos? Mas não ouvi grito ne...
- Havia um garoto chamado Dante... De cabelos brancos... Ele pediu para lhe entregar isto... – contou ela, entregando o envelope para Gavea, as mãos ainda tremendo.
O estranho velho pegou o envelope, abriu e deu uma lida rápida. Amassou o papel, os olhos fechados, com uma expressão preocupada. Ele conhecia o garoto. Tinha conhecido o pai dele. Não só isso, como tinha ensinado o pai dele.
- Me levem até o garoto, rápido! Se for o que estou pensando, ele está em perigo! – disse ele, correndo na direção do carro, sem nem mesmo esperar os outros dois.
Todos entraram no carro. Carlos ainda parecia perdido, mas assim que Maria pediu para que fossem ao “O Caravelas”, ele partiu o mais rápido que pode. Gavea se sentou no banco de trás, junto com Maria.
- Então, conte-me exatamente o que aconteceu... É... Seu nome é? – perguntou Gavea, que só agora havia se dado conta que não sabia nada sobre a mulher.
- Me chamo Maria... Bem, ele surgiu do nada. Estava pálido, e mal conseguia falar. Resolvi ajudá-lo, servi comida e bebida, e tive um conversa um tanto estranha com ele... – disse, pensativa – Então, enquanto conversávamos, os móveis do restaurante começaram a explodir, não consegui entender o que estava acontecendo, só me lembro que um senhor que estava dormindo no restaurante desapareceu... as coisas estavam voando e explodindo, e o garoto me pediu pra eu lhe trazer o envelope... Saí com medo, e então, bem... – deu uma pausa, engoliu em seco, como se não quisesse continuar – então vim na direção das casas, não sabia exatamente onde encontraria o senhor... Ia em direção da casa do senhor Carlos, quando aquele grito ensurdecedor veio da direção do restaurante... Foi horrível, foi como se bombardeassem uma tonelada de imagens no meu cérebro, assim que ouvi aquele som. Vi as coisas mais insuportáveis do mundo... – começou a tremer novamente, e o olhar ficou novamente vidrado, vazio.
Gavea ficou calado, mas pareceu saber exatamente o que havia acontecido. E se estivesse certo, Dante estava em apuros. O filho de seu antigo discípulo... Era um menino especial.
Passaram-se alguns momentos de silêncio profundo no carro, com um clima pesado, até chegarem ao restaurante. Quer dizer, o que deveria ser o restaurante. Saíram do veículo. A casa, que antes já estava em estado deplorável, agora estava definitivamente arruinada. Parecia que uma bomba havia explodido dentro do local: as paredes estavam destruídas e tombadas, pedaços de madeira e telhas por todos os lados, o neon estava distorcido no local onde deveria estar a entrada, apagado. Pedaços dos móveis estavam por todos os lados. Havia até mesmo cadeiras, do lado de fora de loja, bem longe de onde deveriam estar. O senhor Carlos pegou uma delas, a virou para a posição correta, e se sentou, descansando.
- O que você aprontou aqui, Maria? – Perguntou ele, observando o local.
- N-nada... Eu apenas deixei o garoto e... O garoto! Onde ele está? Será que está bem? – Perguntou ela, enquanto saía correndo, procurando Dante no meio dos destroços.
Gavea circulou a construção, olhando cada detalhe. Aquilo não tinha sido obra de nenhum explosivo. Ele podia sentir energia emanando de cada tora de madeira no chão. Se fosse realmente o que estava pensando, a chance do garoto estar vivo era ainda menor.
Um grito. Maria estava no meio dos destroços, as mãos no rosto, horrorizada. Chorava e gritava. Carlos correu em sua direção, preocupado, mas parou e olhou para algo que Gavea não conseguia ver de onde estava. Haviam achado o corpo do menino, pensou. Aproximou-se calmamente, esperando ver um garoto de cabelos brancos deitado, inerte. Surpreendeu-se. No chão não havia o corpo de um garoto, e sim o de um velho, com aparência de mendigo.
- Ele... Ele estava dormindo, enquanto eu e o g-garoto conversávamos... – dizia ela, novamente em choque. Carlos a abraçava, olhando para o cadáver, intrigado e com medo.
Sim, medo. Não só pelo fato de haver um cadáver na frente do grupo, mas especificamente aquele cadáver. O morto estava de olhos abertos, com uma expressão diabólica estampada no rosto, sorrindo como se ainda estivesse vivo. Sua pele estava completamente branca, como se tivesse perdido todo o sangue do corpo durante a morte. E, no centro de seu peito, havia um buraco enorme, como se algo tivesse saído de dentro da caixa torácica. Gavea se aproximou do corpo. Sabia exatamente o que havia acontecido e o que era aquilo. Enfiou a mão no buraco do peito do defunto, segurou as costelas e puxou com muito esforço, rasgando a pele e quebrando os ossos que protegiam o coração da vítima. E lá estava. Todos os órgãos do corpo pareciam ainda estar “frescos”, porém o coração estava podre e seco, completamente negro.
- Hm... Como imaginei. Você sabe o que é isso? – perguntou, mostrando o órgão em putrefação para Carlos. O outro não se abalou, talvez por já ter visto coisas piores na guerra, mas Maria se encolheu de repulsa.
- Ah... Gavea, não comece com essas histórias... Você já fez muita maluquice por causa dessas alucinações doentias durante a guerra...
- É um contain. Um corpo usado por um possessun para tomar forma física e se alimentar – dizia o senhor, que continuava a explorar o interior do corpo.
Possessun? Do que você está falando, velho? Ficou biruta? – perguntou Carlos, completamente indignado - já chega disso tudo. Maria está ficando enjoada, deixe esse presunto e vamos embora!
Gavea fez uma cara de impaciência.
- São criaturas que se alimentam da energia vital do hospedeiro. Eles entram em um corpo e o habitam como um parasita, se nutrindo da alma e da força vital, até que não reste nada, e faça o coração da pessoa apodrecer. Nessa hora então, o monstro tem que arranjar um novo recipiente, um novo contain para poder sobreviver. Esse recipiente aqui já estava com a energia esgotada, pelo que a senhorita me explicou – disse ele, se lembrando do relato da moça, que dizia que o velho estava dormindo – e provavelmente resolveu pegar um corpo novo. Aquele grito que você ouviu era nada menos que uma “arma” que os possessun usam para paralisar a vítima. O grito deles projeta as imagens mais grotescas e desagradáveis que a imaginação pode criar, as cenas mais terríveis que poderia suportar. Eu só não entendo o que aconteceu com ele, normalmente, quando mudam de corpo, eles não deixam nenhum ferimento, apenas saem como fumaça do corpo e entram no novo. Esse aqui foi completamente destruído antes mesmo de sair...
- Mas... Esse grito conseguiu me paralisar e até mesmo o senhor ouviu, pelo que contou... Então por que o resto das pessoas da cidade não pôde ouvi-lo? – perguntou Maria, confusa.
- O grito do possessun só faz efeito em veters, pessoas que tem descendência direta com alguma das forças da natureza... – disse o velho, olhando para Maria com uma expressão intrigada, como se finalmente tivesse descoberto algo importante sobre ela.
Maria e Carlos observavam a explicação do senhor, sem entender muita coisa. Possessun? Um perigo abstrato demais para quem havia se acostumado com a violência das cidades. Gavea continuava observando o corpo e fazendo observações, até que um detalhe, próximo ao buraco inicial no peito do cadáver, chamou sua atenção. Uma pequena placa de madeira carbonizada, do tamanho de seu dedo polegar, entalhada com desenhos abstratos, parecidos com os da maçaneta de sua porta. Estava camuflada no sangue e nas queimaduras internas do ferimento.
- Hm... Um talismã... Será que esse garoto...? – dizia ele, pensativo.
Os outros integrantes do grupo já haviam desistido de tentar entender o raciocínio do velho biruta, e haviam se sentado nas cadeiras jogadas que haviam sobrado inteiras. Maria não aguentou mais a aflição, e se levantou.
- Afinal, o garoto está ou não bem? Tem um cadáver bem na nossa frente, e o senhor age como se nada estivesse acontecendo! Você é o quê? Um maníaco, um psicopata? Carlos, você tem certeza que esse... Esse... Isso tem condições de nos ajudar? – dizia ela, a raiva escapando em baforadas de ar pelo nariz. Quando estava nervosa, costumava falar muito.
Tudo que Carlos pode fazer foi olhar para o amigo com o rosto aflito e levantar os ombros para a mulher, com um sorriso sem graça. Gavea deu uma risada, com a maior calma. Entendia a preocupação da moça.
- Está tudo bem, o garoto, de alguma forma, conseguiu escapar ileso...
- Como pode saber? – perguntou ela, desconfiada que o homem pudesse estar apenas querendo tranquilizá-la.
- Simples, o corpo dele não está aqui.
- E desde quando isso exclui a possibilidade de ele ter se ferido ou morrido? – perguntou a garçonete, os olhos saltados. Estava a ponto de ter um ataque de nervos.
- Esqueça isso, tenho certeza de que ele está bem, podem voltar para suas casas, despreocupados. Quanto à senhorita, lamento pelo restaurante. Bem, podem me levar para casa, tenho que me preparar para uma longa viagem – dizia o idoso, com um sorriso no rosto.
Maria e Carlos olhavam para ele, sem saber o que falar. Carlos sentia que não tinha sido útil em nada e insistia em mandar no outro dia um grupo de homens para olhar o local e procurar mais pistas sobre o que havia acontecido, e Maria não se convencia de que o garoto estava completamente bem. Gavea ria dos dois e mandava ambos pararem de se preocupar tanto, e insistia que deviam ir logo para casa. Por fim, aceitaram a sugestão, por estar quase amanhecendo. Estavam cansados e confusos. Entraram no carro e partiram pelo caminho de volta.
- Para onde pretende ir, Gavea? – perguntou Carlos, enquanto dirigia. Maria também parecia estar pensando sobre isso e deixou um ar de interrogação com seu olhar. Ainda estava muito irritada.
Gavea simplesmente retirou o envelope que havia recebido de Maria, abriu, e entregou aos dois. Estava escrito:

“Se chegar a receber isso de outra pessoa, saiba que estou lhe esperando, na cidade W-1025. Tenho assuntos importantes para tratar com você.
Dante, filho de seu antigo aluno, Nicolau.”