Fazia
sol na cidade W-1025. Uma bela tarde para fazer um piquenique no parque,
aproveitando o lago para se refrescar, pensou ela. Mas não, Dandara estava
trancada dentro daquele Perglider preto. Era um carro caro, e havia sido
desenvolvido pela Ferrari há pouco tempo. Era um dos poucos que possuía a nova
tecnologia de planador, que no lugar das rodas, usava propulsores de ar que
faziam o carro flutuar por volta de trinta centímetros acima do chão. O
automóvel também tinha bancos macios, feitos de couro, e um frigobar com
refrigerantes e doces para a garota comer. Seu design interior e exterior se
parecia muito com o das limusines fabricadas um século atrás. Um sonho para
muitos. Ainda assim, ela se sentia desconfortável em meio a tanto luxo.
Preferia estar caminhando, sem se sentir uma patricinha mimada.
Também
queria não estar usando aquele uniforme: uma blusa branca e apertada, com um
suéter azul escuro e quente por cima, uma saia preta que ia até os joelhos,
meias longas e brancas e um par de sapatinhos pretos de salto alto. Além
daquilo tudo, usava um chapéu, também preto, que tinha um brasão prateado de
uma coruja. Estava a caminho da IEFU, Instituto Estudantil Feminino da União.
Era uma universidade criada pelo governo, apenas para garotas filhas dos altos
comandantes. Lá se ensinava tudo que uma mulher rica deveria saber: regras de
etiqueta, administração, astronomia, gastronomia, literatura, entre várias
outras coisas. Com quinze anos de idade, a garota não sentia a mínima vontade
de fazer nada disso. Tédio. Com essa única palavra, ela poderia descrever sua
vida. Seu pai, dono da indústria bélica que abastecia o exercito global, a
obrigava a frequentar aquela “escola”. Mas isso não queria dizer que ela
simplesmente aceitava isso como uma boa garota. Sempre que podia, tentava fugir
de lá e passava as tardes vagando pela cidade, geralmente se drogando. Não
tinha muitos amigos, pois o pai achava que os adolescentes daquela cidade “não
estavam no nível de sua filha prodígia”. Essa era a vida dela, cheia de
palavras entre aspas, sem tempo para se perder em sonhos ou ilusões. Era
excessivamente protegida, e graças a isso era excessivamente infeliz. Mal sabia
aquela jovem princesa que as ilusões e os sonhos que todos viviam tentando
afastar dela, estavam prestes a se tornar a mais pura realidade.
O
Perglider parou. Estava em frente a um prédio de cinco andares, com uma
arquitetura que impunha respeito, medo e admiração. Ninguém saberia dizer que
estilo aquele prédio seguia, pois unia vários recursos estilísticos de
civilizações de épocas passadas. Ela havia lido em algum lugar que,
antigamente, o mundo era dividido em países ou nações, e cada país tinha sua
própria cultura e costumes. Achava aquela ideia impressionante. Queria poder
conhecer pessoas diferentes, lugares diferentes. Ela não teve essa
oportunidade, pois desde que nascera os padrões culturais em todo o mundo já
estavam uniformes. Os prédios eram todos feitos seguindo um padrão, as pessoas
falavam apenas uma língua, a música seguia sempre as mesmas tendências. A
cidade W-1025 era a mais liberal em relação a esses padrões, por ser a área de
descanso da maioria dos funcionários do governo. Ainda assim, era possível
encontrar algumas raríssimas lembranças dessas diferenças, como aquela a sua
frente. Todas aquelas características, apesar de diferentes, interagiam de
forma harmoniosa, fazendo daquele prédio único, até mesmo sagrado. Dandara
sentia-se insignificante perto de tanta exuberância, e mesmo que odiasse
estudar ali, era obrigada a admitir seu fascínio por uma obra de arte como
aquela. Abriu a porta e desceu. Corou. Tinha vergonha de ser vista saindo de um
carro como aquele. Criava a falsa ilusão de que era alguém diferente. O motorista
veio correndo em sua direção.
-
Senhorita! Eu deveria ter aberto a porta, me perdoe... – disse ele, ofegante.
Dar a volta em um carro daquele tamanho e chegar a tempo de abrir a porta para
a menina parecia ser uma tarefa cansativa.
- Não
precisava se incomodar, Rodolfo... – disse, com o rosto ainda mais vermelho.
Odiava aquilo de ter sempre alguém pra fazer as coisas para ela. Gostava de ter
seu espaço.
Caminhou
calmamente em direção à entrada da escola, o barulho do salto ecoando pela rua.
Até mesmo aquilo a irritava. Subiu a pequena escadaria de pedra, e escorregou.
Conseguiu se segurar no corrimão a tempo de evitar a queda, mas acabou ralando
a mão graças à superfície áspera do mesmo. Mordeu o lábio, com raiva. Também
odiava aqueles saltos, eram desconfortáveis e sempre causavam situações como
aquela.
-
Senhorita? Está tudo bem? – perguntou Rodolfo, retirando o quepe e fazendo
menção de ir em direção à menina para ajudá-la.
- Está
tudo ótimo, Rodolfo! Pode ir para casa – disse Dandara. Sua voz áspera
demonstrava sua irritação.
Rodolfo
assentiu com a cabeça, entrou no carro, e foi embora. Sabia que ela estava
nervosa, então não se importou com a grosseria. Dandara se aprumou, mas não fez
questão de entrar. Estava sozinha, Rodolfo já havia ido, e ninguém estava ali
para vigiá-la. Poderia aproveitar a oportunidade para fugir da aula. Poderia,
porém um pigarro chamou sua atenção.
- Está
esperando alguma coisa, senhorita Dandara?
Roberta
estava parada, olhando para a menina com um sorriso discreto. Um vento frio
agitou os cabelos negros e lisos da jovem, fazendo-a gelar. Aquela era a
diretora do instituto. Seus olhos negros pareciam atrair os olhos castanhos da
garota como um imã. Dandara se sentiu angustiada. Seu corpo não se movia, muito
menos sua boca.
-
Estou esperando sua resposta – perguntou novamente a mulher. Apesar daquele
sorriso e daquele olhar calmo, havia algo que parecia extremamente ameaçador
irradiando de sua presença.
-
N-nada, senhora Roberta... – disse a menina, os olhos ainda vidrados nos da
diretora, a respiração um pouco ofegante. Estava pálida.
-
Muito bem... – disse a outra, piscando rapidamente. No momento em que ela fez
isso, Dandara pareceu conseguir de volta o controle sobre si – então entre de
uma vez.
-
S-sim senhora... – disse a garota, se apressando para entrar, desajeitada em
cima dos saltos.
O
salão de entrada era enorme. As paredes de mármore eram cobertas por tecidos
vermelhos de seda, com vários desenhos em dourado e prata. O teto era uma
abóbada, feita inteira com vidros de cores diferentes, de forma que a
iluminação do recinto era feita pela luz natural. Havia uma bancada com cinco
atendentes, cada uma com seu computador. Dandara já estava naquela escola fazia
três anos, e ainda assim se encantava com aquela beleza que a oprimia. Mas não
pôde ficar muito tempo observando. Caminhou com passos rápidos em direção a
porta que dava para o corredor das alunas, do outro lado da sala. Podia sentir
o olhar de Roberta fuzilando suas costas. Fechou a porta atrás de si, e de
imediato se sentiu melhor. Longe da diretora, ficou leve, como nunca antes.
Tudo naquela mulher parecia intimidá-la: seus cabelos ruivos, seus pequenos óculos
de lentes arredondadas, sua aparência jovem unida com a elegância de suas
roupas, e aquele olhar penetrante. Sentia um misto de medo e respeito,
exatamente a mesma sensação que sentia admirando o colégio, intensificada
várias vezes.
Seus
pensamentos foram interrompidos pela conversa intensa do corredor. Dezenas de
alunas andavam e falavam, todas uniformizadas, como Dandara. Muitos dos
marechais promovidos mandavam as filhas para a escola, pois era a melhor de
toda União. Tinha pesquisas e livros de todas as bibliotecas famosas do
passado. Mas obviamente, o instituto não aproveitava todo material. As aulas
eram sobre assuntos fúteis, apenas com o intuito de agradar as garotas, também
fúteis, que se achavam donas do mundo. Dandara as odiava. Passou por todas,
calada, alheia aos olhares antipáticos. Não dava a mínima. Na realidade,
gostava de ser excluída, assim não era obrigada a tolerar as idiotices que elas
achavam super interessantes. Foi na direção dos armários. Eram todos feitos de
madeira nobre, com trancas banhadas a ouro. Ela não suportava todo aquele luxo.
Com o dinheiro que gastavam com aquelas baboseiras, poderiam ajudar dezenas de
pessoas necessitadas, pensou ela. Abriu e olhou o horário fixado na porta. A
primeira aula era de História. Pegou seu caderno de anotações, seu bloco de
desenhos e seu estojo, e caminhou em direção à sala.
- Sua
estranha...
Quem
havia dito aquilo era Patrícia, a menina mais implicante e metida dentre as
outras. Outras duas garotas, que Dandara não conhecia o nome, riram atrás dela.
Ela não deu importância para o insulto infantil, e continuou seu caminho,
ignorando os olhos que insistiam em tentar abalá-la.
O
professor ainda não estava em sala. Dandara caminhou calmamente para o fundo,
onde ficava isolada das outras garotas. Sentou-se ao lado da janela ampla. O
recinto era luxuoso como toda a escola. As carteiras tinham estofamento e mais
pareciam poltronas com mesinhas grudadas na frente. No lugar do quadro, havia
uma enorme televisão, ligada a um computador, que já estava ligado para aula. A
menina, cansada de esperar, se sentou relaxada na cadeira, se esquecendo da etiqueta
exigida na escola, e olhou através da janela. De lá podia ver o parque da
cidade. Várias árvores, uma calçada para caminhada, um bosque de arvores
relativamente grande, que mais parecia uma pequena mata, e o lago, límpido. Uma
bomba fazia jorrar água para o alto, em seu centro. Várias pessoas caminhavam,
casais estavam deitados na grama, alguns liam em seus e-books, e havia até
mesmo um ou outro aventureiro pulando na água, por diversão. Daria tudo para
estar ali, bem longe daquela escola idiota, pensou ela. Ouviu passos ecoando
pelo corredor, em meio ao ruído da conversa do lado de fora.
O
senhor Renato entrou na sala, carregando sua maleta. Tinha cabelos grisalhos e
usava uma barba mal feita. Estava com uma camisa branca, um sobretudo azul
marinho, junto à sua calça escura e os sapatos pretos bem engraxados. Sentou-se
à mesa do computador, impaciente, organizando sua aula do dia, enquanto
esperava as outras alunas entrarem em sala. Pareceu não notar nem rastros de
Dandara no local. Ela também o ignorou. Logo as demais garotas entraram aos
grupinhos, rindo e conversando, mas assim que notaram o professor, calaram-se
imediatamente e foram para seus lugares. Renato era extremamente intolerante
com desatenção durante suas aulas. Passados alguns momentos, ele se levantou.
Pôde contar pouco mais de vinte lugares ocupados. A sala estava completa.
-
Hm... Bom dia a todas, senhoritas – disse ele, folheando algumas anotações. As
garotas retribuíram o cumprimento, exceto Dandara, que ficou calada – Bem... Hoje
vamos falar sobre a Terceira Guerra. Respondam-me, alguém sabe me dizer foi o
principal fator que serviu como estopim para que esse conflito se iniciasse?
Silencio.
Algumas alunas se entreolharam, mas ninguém ousou falar.
-
Hm... Ninguém? – ele olhou para a sala, desgostoso, o rosto impaciente. Viu
Dandara, sentada no fundo, sozinha, e isso pareceu chamar sua atenção –
senhorita Dandara?
Toda
atenção da sala se voltou para a garota. Ela estava olhando pela janela,
absorta com algo estranho do lado de fora, e foi pega de surpresa. Olhou para
todos, desconcertada, procurando algo em sua cabeça que pudesse agradar o
professor. Patrícia deu um sorriso maléfico.
-
Ah... – ela se demorou, pensando. Por fim, teve coragem de dizer – Bem, foi uma
disputa entre a antiga potência mundial, Estados Unidos da América, e vários
países do oriente médio, por petróleo.
Ele
balançou a cabeça, decepcionado com a resposta simplista. Dandara ficou
vermelha. Odiava esse tipo de situação.
-
Dandara, você já tem conhecimento o bastante para elaborar respostas mais
completas... A Terceira Guerra se iniciou após o roubo da Bomba H3 da Rússia. Diga-me,
que país roubou a bomba?
-
Ah... Israel?
-
Errado. País nenhum roubou a bomba. Quem realizou o roubo foi uma organização
terrorista, que apesar de ter se formado anonimamente em Israel na época, não
era aliada dos países do Oriente Médio, e queria apenas gerar ainda mais
discórdia entre ambos os lados, para que se destruíssem. Denominavam-se a Mak
Ün. Não se sabe o significado da palavra, mas imaginamos que fosse um tipo de
código. Sua principal meta, aparentemente, era o fim do mundo. Mas antes mesmo
do roubo da bomba, já existiam motivos para a disputa, como você disse,
Dandara. Os EUA queriam a grande quantidade de petróleo que havia sido
encontrada no subsolo desses países em 2015. Foram descobertas ainda mais
reservas, que junto às que já haviam sido descobertas anos antes, representavam
mais de 80% de todo volume de petróleo do mundo. Uma quantidade absurdamente
grande. E assim que descobriram isso, os Estados Unidos, que já haviam tido
conflitos com essa região por petróleo, retomaram os ataques ao Oriente Médio,
gerando uma explosão de disputas sangrentas... – ele pausou a explicação por um
momento, clicou em algo no computador, e logo a televisão exibiu os vídeos que
ele havia preparado para a aula. Enquanto isso, ele narrava as cenas – Os
americanos lançavam ataques aéreos, bombardeando cidades. Isso obrigou as
vitimas a unir seus governos, e se aliar aos terroristas, formando o que
chamamos de Aliança Oriental. Em maio de 2017, um avião monomotor, lotado de
bombas, se chocou contra a casa branca, mas o presidente já não se encontrava
lá. Isso enfureceu os americanos. As batalhas se tornavam cada vez mais
sangrentas, com o passar dos anos. A Aliança estava cada vez mais pobre, com
seus territórios mais destruídos, e a população americana cada vez revoltada
contra seu governo, que colocava inocentes em risco pelo petróleo, e mandava os
jovens para morrerem na guerra.
Dandara
estava agora completamente atenta à aula. Isso era raro, mas compreensível, uma
vez que assuntos de antes da União sempre a interessavam. E não apenas a ela,
pois todas as alunas estavam caladas, prestando atenção no discurso do
professor e nos vídeos. Eram imagens fortes, centenas de mortos baleados,
bombas caindo sobre cidades e matando inocentes. Era impossível imaginar como
isso poderia se tornar pior. Renato pausou os vídeos.
- Eis
então que, por volta de 2019 e 2021, em meio a toda desgraça, a Mak Ün surgiu
nas sombras... Ela aparentava ser apenas um grupo de revoltados com ideias
insanas. Mas logo mostrou que era bem mais do que isso. Eram especialistas em
invasão de bases militares. Seus terroristas se infiltravam como membros das
forças militares, reconheciam a segurança, e por fim rendiam e matavam os
comandantes, lideres, e oficiais de alta patente, criando uma enorme
desorganização no sistema de hierarquias, que deixava os soldados vulneráveis e
sem rumo. Utilizando dessa tática, invadiram um dos portos da Aliança Oriental
e roubaram seis navios de guerra e um submarino espião, desenvolvido na Coréia,
e partiram em direção ao oceano. Seu novo alvo era um porta-aviões da marinha
dos Estados Unidos. Assim que se aproximaram, os navios que defendiam a enorme
embarcação concentraram seus ataques aos navios de guerra orientais, enquanto o
submarino, que era invisível aos radares, se aproximou mais, e atirou um
torpedo. A inesperada explosão deixou os navios de defesa confusos, e acabaram
sendo dizimados pelos tiros das embarcações inimigas, e pelos projéteis do
espião marinho. Um dos barcos foi até o porta-aviões, que continha vários
Boeings B-52, aviões bombardeiros, todos munidos com bombas de queda livre.
Decolaram seis deles, sendo que dois sobrevoaram Nova York, lançando três
bombas dentro da cidade antes de serem abatidos. As outras quatro aeronaves não
foram encontradas. O evento ganhou grande repercussão na mídia, e foi atribuído
à Aliança Oriental, que nada tinha a ver com o ataque. Logo os EUA
intensificaram o bombardeio às cidades do Oriente Médio. Até aí, a Mak Ün ainda
não havia sido descoberta, nem tinha demonstrado suas reais intenções. Foi
então que invadiram uma base militar russa, onde a Bomba H3 estava sendo
estudada. A Rússia estava criando essa arma em segredo, após o mundo ter
descoberto, em 2018, que os EUA tinham criado a Bomba H2, uma bomba de
hidrogênio ainda mais poderosa que as testadas anteriormente, e ainda mais
poderosa. Hoje em dia, os estudiosos descobriram que a Bomba H3 tinha mesmo
potencial de destruição que a H2 dos EUA, e apenas uma delas já poderia
destruir um planeta com mesmo tamanho de Júpiter.
Ao
terminar a última frase, ele sorriu dos olhares perplexos das alunas. Dandara
não conseguia imaginar porque alguém criaria uma arma assim. Mas então teve uma
dúvida.
-
Professor, como a Mak Ün sabia da existência da bomba?
O
professor olhou pra ela, com uma sobrancelha arqueada.
-
Ninguém sabe, da mesma forma que não sabemos da origem do grupo. Tudo
relacionado a eles é uma incógnita. Só sabemos do resultado de suas ações, que
influenciaram o mundo inteiro.
Dandara
soltou um suspiro de decepção. Quase um século depois do desastre, e não sabiam
absolutamente nada?
- Mas
enfim... Onde eu havia parado... Ah sim, os terroristas foram até a base
militar, e se infiltraram. Logo, havia integrantes da facção tanto no sistema
de segurança, quanto no grupo de pesquisadores e cientistas que estudavam a
bomba. Por fim, acabaram rendendo os russos, quando os integrantes infiltrados
ameaçaram detonar a bomba dentro da base. Fizeram com que todos ajudassem a
lançar o projétil em direção aos EUA. Acontece que a bomba era tão grande, que
não podia ser transportada em aviões, e necessitava ser lançada como um foguete
para fora da atmosfera, para só então iniciar a re-entrada na mesma e atingir o
alvo. Isso fez com que a preparação para o lançamento demorasse algum tempo,
permitindo que um agente americano, também infiltrado, contatasse o Pentágono
para avisá-los. O governo dos EUA entrou em pânico. Não sabia como se defender
do perigo iminente. Eis então que, para evitar a tragédia, decidiram detonar a bomba
assim que ela saísse da atmosfera. Por sorte, os Estados Unidos tinham um
sistema de lançamento para sua Bomba H2 e o utilizaram para lançar um projétil
com uma bomba atômica. Assim que a base russa lançou a Bomba H3, eles lançaram
o “anti-bombas” em rota de colisão com o outro foguete. Deu certo. A explosão
foi tão forte, que mesmo estando no espaço, grande parte do planeta pode ver
uma esfera de luz surgindo no céu. E não apenas isso, parte da radiação emitida
entrou na atmosfera, e ainda hoje, há indícios de doenças causadas pelo
incidente. O que vocês acham que aconteceu depois disso?
Todas
ficaram caladas. Dandara então resolveu arriscar:
-
Cessaram os conflitos? Não é possível que tenha havido ainda mais luta após
tudo isso...
Renato
deu uma risada e balançou a cabeça negativamente.
-
Claro que não... Você acha que os Estados Unidos, a maior potencia mundial da
época, iria deixar um ataque desses sem punição? Não, não... Quem vocês acham
que sofreu as consequências?
- A
Mak Ün? – arriscou a menina novamente.
- Não.
Logo após a explosão da bomba no espaço, quatro aviões bombardeiros americanos
explodiram toda base militar russa. Porém os americanos não haviam ordenado o
ataque, pois o agente infiltrado havia dito que os russos não tinham comandado
o ataque. Hoje alguns afirmam que quem pilotava os aviões eram integrantes da
Mak Ün.
- Mas
porque eles matariam seus próprios aliados? – perguntou novamente a jovem.
Nunca tinha participado tanto de uma aula, pensou o professor, sorrindo.
- Por
quê? Para não deixar nenhum rastro do crime, e dessa forma não serem
descobertos. Se descobrissem que era armação, a guerra acabaria, e ambos os
lados iriam se voltar contra o grupo. Um fato que comprova que provavelmente a
destruição da base foi feita pela própria Mak Ün é que os bombardeiros eram
Boeings B-52, exatamente as mesmas aeronaves que haviam sido roubadas do
porta-aviões americano sequestrado por ela.
"Mas
enfim, continuando de onde eu havia parado... Quem levou crédito pelo ataque
foi, obviamente, a Aliança Oriental, por estar aliada aos terroristas. Na
verdade, o governo dos EUA já desconfiava que pudesse ter sido alguma outra
organização que não estivesse participando da guerra, mas optou por atacar a
Aliança, usando deste pretexto, para enfim conseguir o petróleo. Mandaram um
grupo de aviões, que dizimaram completamente o Oriente Médio com nada menos que
sete bombas atômicas. Mesmo não sendo nada comparado à Bomba H2, foi uma
destruição monstruosa, que deixou o mundo abismado. O território ficou completamente
devastado."
Dandara
estava inquieta. Todas essas mortes por tão pouco?
- Eu
sei o que está pensando, senhorita... Realmente, é uma barbaridade. A maior
guerra de todos os tempos foi feita pelo motivo mais banal de todos os tempos.
Mas sim, é exatamente isso, a Guerra Nuclear teve como motivo apenas o
petróleo. Pra vocês, isso pode não ter valor hoje, uma vez que temos
incontáveis formas de energia sustentável, mas naquela época, o petróleo ainda
era uma das fontes de energias mais importantes do mundo, e seu valor
absurdamente alto.
A sala
ficou silenciosa. As garotas sussurravam entre si, comentando a explicação.
Renato pediu para todas que anotassem em seus cadernos agora suas conclusões
sobre a aula. Enquanto isso, Dandara, absorta em seus pensamentos, desviou seu
olhar para a janela ao seu lado.
Uma
cena estranha se desenrolava lá fora. Na rua, entre o parque e a sede da
instituição, estava um automóvel, movido a propulsores de ar, como o Perglider,
porém muito mais robusto, parecia blindado, e no lugar do porta-malas, havia
uma espécie de gaiola. Era preto, tinha metralhadoras acopladas abaixo dos
retrovisores, e sirenes. Um carro militar. E na entrada do prédio, dois
soldados estavam parados, conversando com ninguém menos que Roberta. Ela
balançava a cabeça negando algo. Parecia um tanto irritada, e mesmo os soldados
pareciam não querer contrariá-la. Contudo, ela pareceu se acalmar, e permitiu
que os soldados entrassem. Estranho. O que o exército queria no colégio afinal?
Dandara não sabia dizer. Passou os olhos novamente pela viatura, e notou algo
estranho.
Olhos
vermelhos, olhando diretamente para ela, através dos vidros escuros. Estavam na
parte de trás, dentro da gaiola do automóvel. Brilhavam estranhamente. O que
seria aquilo? Aproximou os olhos do vidro, pra tentar enxergar melhor, porém os
pontos de luz vermelhos desapareceram. Estranho, pensou.
“Socorro...”
Seu
coração deu um salto. De onde veio aquela voz? Olhou para os lados, assustada,
mas após um olhar de Renato, se aquietou, e fingiu que estava escrevendo.
“Socorro,
por favor...”
Outro
susto. A voz estava em sua cabeça. Ecoava pelo seu crânio, como se fosse um
pensamento. Seria um espírito? Estava com medo. Respirou fundo, e olhou
novamente para a janela. Viu novamente, dois globos oculares brilhantes.
"Eu
estou morrendo..."
O suor
frio escorreu pelo seu rosto. Havia algo dentro daquele carro, e precisava de
ajuda.
-
Professor, por favor.
Na
porta da sala, estava a diretora, com os dois soldados atrás de si. Renato
empalideceu. Levantou-se lentamente e foi em direção à porta. As adolescentes
observaram, curiosas.
-
Continuem escrevendo – mandou Roberta. As canetas voltaram a riscar o papel,
deixando claro que não iriam se meter no que não deviam. Porém, os olhos de
Dandara continuaram fixos na porta.
Os
adultos falaram baixo, para que as alunas não ouvissem. Porém Dandara continuou
alerta, e por fim, Renato acabou exclamando em tom mais alto:
- Não
podem me prender apenas por isso... Eu estava apenas contando a história...
Um dos
soldados o interrompeu com um soco na boca do estomago, fazendo com que o
professor soltasse um gemido de dor. Algemou-o e pediu para o colega que o
conduzisse até o carro. Continuou a conversar com a diretora quando o outro
saiu, levando Renato. Roberta continuou estranhamente calma, mas as alunas não
conseguiram se conter.
-
Senhora, porque o professor está sendo preso? Ele não fez nada!
- Sim,
eu aposto que deve ser algum engano!
-
Caladas! Voltem a fazer anotações, agora! – bradou a diretora, que estava
irritada. Não adiantou completamente, mas fez com que as garotas fizessem menos
barulho.
Ela
continuou falando com o oficial, até que ele em certo momento disse algo em seu
ouvido, com um sorriso sarcástico no rosto. Dandara pôde ver de relance ele
acariciando os seios da mulher. Então algo aconteceu e sua visão se distorceu,
como se estivesse tonta, e quando se recuperou o policial havia se afastado
segurando a mão, gemendo de dor. A meina sentiu um calafrio, e notou que as
outras garotas pareciam estar sentindo o mesmo, apesar de nenhuma delas parecer
ter visto o que aconteceu.
- Isso
é pra aprender a ter respeito. Não dou a mínima pra esse professor, e não irei
fazer favor nenhum ao senhor para que o solte. Já pode ir embora da minha
escola. - disse a diretora, em tom firme.
Dandara
estava calada, observando tudo. Não pode ver o que Roberta fez com a mão do
pervertido, mas achou tudo muito estranho. Não entendia nada que estava
acontecendo. Estavam prendendo o professor pelo que tinha dito em sala? Então
era crime falar sobre a Terceira Guerra? Curioso... Será que havia algo que não
poderia ser revelado a todos? Muitas perguntas, nenhuma resposta. A única coisa
que a menina sabia é que tinha de ajudar o professor e o estranho de olhos
vermelhos. Em sua cabeça, o pedido dele continuava a ecoar, baixo, quase
inaudível. Já não sabia se estava imaginando, ou se ele continuava chamando.
- Eu
já não disse para ficarem caladas?
As
outras alunas voltaram a cochichar devido ao incidente com o policial. Um bando
de frescas, pensou Dandara. Uma delas se levantou.
- Por
que o professor Renato foi levado, diretora?
- Não
é da sua conta, Patrícia. Faça o favor de se sentar. – falou a mulher, em tom
áspero. Normalmente, ninguém ia contra sua vontade, mas outras duas garotas
também se levantaram. Eram as mesmas que estavam com Patrícia no corredor.
-
Vocês não podem fazer isso!
- É
verdade, o Renato é o melhor professor do colégio!
Dandara
era obrigada a concordar. Apesar de não gostar de nenhum dos professores,
Renato era o menos pior. E hoje a aula havia até sido interessante, algo raro.
O restante das alunas também se levantou, pedindo para que soltassem seu
professor. Tolas, não iam conseguir nada assim, pensou. Porém estavam
distraindo a diretora, e isso era ótimo. O soldado havia deixado Renato no
carro e entrado novamente no prédio. O carro estava sozinho. A garota abriu a
janela lentamente. Coração acelerado. O vento batia suavemente contra seu
rosto, como se estivesse convidando-a. Ela costumava ter idéias excessivamente
estúpidas, ou talvez excessivamente brilhantes. Estava no segundo andar, e
abaixo da janela estava o telhado do primeiro. Tirou o sapato de salto alto que
tanto lhe incomodava e colocou o chapéu na mesa ao lado. Passou a perna para o
lado de fora lentamente. Depois a outra. Por fim desceu, e ficou de pé sobre as
telhas de barro. Era obvio que Roberta havia percebido. Porém estranhamente não
fez absolutamente nada, e fingiu estar ocupada com as outras alunas. A jovem
não questionou, apenas caminhou o mais rápido que podia sem quebrar nada.
Chegou até o beiral próximo à entrada do colégio. Os arbustos que enfeitavam o
jardim poderiam amortecer a queda. Pulou sobre o que parecia ser mais “macio”.
Os
galhos arranharam sua pele, mas por sorte não se machucou. Levantou-se e limpou
as folhas presas à roupa, enquanto caminhava em direção à rua. A calçada estava
quente graças ao sol. Dandara caminhava na ponta dos pés, dando pulinhos, para
não queimá-los. A viatura estava logo ali. Foi até a porta traseira, e espiou
perto do vidro. Renato levou um susto. Ela sorriu, achando graça. Não podia
ouvir o que ele dizia por causa do vidro, mas percebeu que estava pedindo para
tirá-lo dali. Ela puxou a maçaneta, e a porta se abriu, sem nenhuma
dificuldade.
- Ué?
Não trancaram? – perguntou surpresa.
- A
porta só abre pelo lado de fora – explicou ele, saindo apressado do carro,
desajeitado por estar algemado – vamos, precisamos sair daqui de uma vez, antes
que percebam - O suor escorria até sua barba mal-feita. Estava nervoso.
-
Calma, preciso tirar uma pessoa que está dentro da gaiola... – disse ela, se
lembrando dos pedidos em sua mente.
-
Ficou maluca? Ai atrás só tem um cachorro, que parece estar muito doente...
Ela
abriu o porta-malas e realmente, dentro da gaiola, só havia um cão negro. Ele
abriu os olhos e voltou-os na direção da jovem. Eram ainda mais vermelhos de
perto e, por incrível que pareça, mais brilhantes. Pareciam duas lanternas. Ela
ficou com medo.
- Por
que os olhos dele... Por que são tão vermelhos?
- Hã?
Do que está falando?
Ela
olhou para Renato. Ele parecia não estar vendo nada de anormal no bicho. Será
que estava ficando louca?
“Socorro...”
Teve
um calafrio. A voz agora estava muito mais intensa. Olhou para o animal, e ele
retribuiu o olhar. Um olhar sábio, racional. Não era simplesmente um cachorro.
Era algo mais. Podia sentir. Foi até a grama, e catou maior pedra que
encontrou. Começou a batê-la na tranca das grades.
- Você
ficou louca Dandara? Não faça tanto barulho, vão acabar percebendo... Vamos
embora logo... – sussurrou Renato, tentando fazê-la parar. As pessoas do parque
começaram a olhar a cena estranha: uma menina arrombando uma viatura, junto a
um homem algemado, para salvar um cachorro. Intrigante.
Um
estalo. A trava caiu no chão, e a menina largou a pedra. Tentou abrir a gaiola,
mas levou um empurrão, e acabou caindo no chão, ralando o braço no asfalto. O
cão, na pressa de se ver livre, empurrou a porta que bateu na garota. Só foi
possível ver uma mancha negra fugindo, veloz, em direção às árvores do parque.
-
Droga... Eu ajudo, e é assim que agradece? – exclamou a menina, com a expressão
fechada.
- Hei!
O que aconteceu aqui?!
Os
soldados estavam na porta do instituto. Quando viram o prisioneiro do lado de
fora do carro e a gaiola aberta, ficaram sem reação. Porém não demorou para que
se recompusessem do susto, e logo correram em direção da viatura.
-
Parados!
Renato
ajudou Dandara a se levantar, e começaram a correr também, na mesma direção que
o cachorro havia ido. Um dos oficiais retirou uma arma elétrica do cinto, e
mirou em Renato.
-
Argh!
O
professor caiu no chão, se contorcendo. Em suas costas, estava presa uma pequena
garra de metal, que deveria estar lhe dando choques, causando os espasmos. A
menina parou por um momento, preocupada, querendo ajudá-lo.
- Não!
Vá de uma vez, senão vai ter problemas! – gritou o homem, ainda se debatendo,
abanando as mãos atrás da cabeça, tentando tirar o projétil do corpo. Os
soldados já estavam se aproximando.
Ela
correu, em meio às pessoas assustadas. As meias estavam sujas de terra quando
finalmente chegou às árvores. A mata era fechada, mas não o bastante para
escondê-la para sempre. Tinha que pensar pra onde iria.
Escondeu-se
no meio de algumas árvores, e deitou-se. Pôde ouvir o som dos sujeitos correndo
pela terra, procurando-a. Por sorte, passaram direto pelo esconderijo, indo
mais para o centro do bosque. Ela relaxou os músculos e olhou para o céu azul.
Aquele
sol animava todo seu ser. Passou alguns segundos apenas olhando as nuvens, e
aproveitando o vento fresco. Não queria mais voltar para aquela escola. Mesmo
que precisasse fugir de casa, não voltaria, pensou ela. Mas então seu
raciocínio foi interrompido bruscamente, quando se lembrou do cachorro.
Sentou-se e olhou ao redor.
E lá
estava ele, alguns metros adiante, deitado na sombra de uma árvore. Dandara se
levantou e foi em sua direção, cautelosamente. Ele era grande, um vira-latas.
Parecia doente. Estava magro, as costelas a mostra por baixo do couro, os pelos
negros sem brilho e caindo. Tinha a expressão abatida e a respiração
desregulada. Os olhos brilhantes se moviam de um lado para o outro, como se o
cão estivesse tendo algum tipo de crise. Uma pessoa qualquer teria medo, mas
Dandara sentiu pena do animal. Encostou a mão no pescoço dele timidamente,
tentando animá-lo.
Dor.
Assim que tocou o pêlo frio do cão, sentiu seu peito queimar. Era como se seu
coração estivesse explodindo, e sua alma estivesse lutando para permanecer em
seu corpo. Começou a tremer. Seus olhos se reviravam, e ela tentava gritar, em
vão. O berro morria na garganta, que havia se fechado, impedindo a entrada de
ar para os pulmões, fazendo com que ficasse sufocada. Ela sentia o terror
dominando sua mente, e a morte se aproximando. Tentava tirar a mão do animal,
mas estava presa por alguma força invisível. O que era aquilo? Não sabia dizer.
Enquanto isso, o cão, como que por mágica, parecia melhorar consideravelmente.
Seus pêlos recuperaram o brilho. Não estava mais caquético. Seus olhos cor de
sangue iam de encontro aos de Dandara. Fosse o que fosse, o animal estava se
alimentando da energia vital daquela garota. O sol que ela tanto amava começou
a se distanciar. Tudo estava ficando escuro. Não queria isso. Mais alguns
segundos, e seria seu fim.
Seria.
Mas uma mão milagrosa resolveu ajudá-la, e o cão foi jogado longe, ganindo.
Tudo que Dandara pode ver antes de desmaiar foi um vulto parado a sua frente.
Seus cabelos eram brancos como a neve.
Dante
estava sem camisa. Sua aparência estava ainda pior do que antes, quando
apareceu n’O Caravelas. Estava mais pálido, e parecia ter emagrecido ainda
mais. Provavelmente, naquela semana que havia se passado, após o incidente no
restaurante, ele não havia comido mais nada. Ainda assim, seu olhar continuava
irradiando uma espécie de poder estranho e intimidante. Em seu ombro, havia uma
cicatriz enorme, que parecia recente. Um casal que havia entrado ali há pouco
tempo, olhava a cena sem entender o que acontecia. O garoto olhou para a menina
caída, preocupado com o que poderia ter acontecido. Estava pálida, ainda mais
do que ele. Colocou a mão sobre sua testa. O rápido contato com o cão havia
feito a temperatura dela subir consideravelmente. Dante fixou os olhos no cão,
a expressão fria.
O
animal se levantou, e sustentou o olhar do jovem. Não por muito tempo. Logo
abaixou a cabeça, e os olhos brilharam ainda mais intensamente, e com um clarão
de luz, a figura misteriosa desapareceu, deixando Dante sozinho, junto à garota
desmaiada. Ele se virou e pegou Dandara do chão. Os membros finos conseguiram
erguê-la com extrema facilidade. Ele saiu caminhando, os pés descalços no
asfalto quente. Pra onde ia? Talvez nem mesmo ele soubesse.