segunda-feira, 23 de julho de 2012

Capítulo V - Vida


Calor. Seu corpo inteiro estava dolorido, e a luz ofuscava seus olhos. Dante se moveu com dificuldade na cama. Parecia haver algo pesado em cima de sua barriga. Tentou se sentar, e levou um susto. Sentada ao lado da cama estava a garota que ele havia resgatado.
Dandara estava debruçada sobre ele, como se tivesse caído no sono. Devido ao movimento brusco, ela acabou despertando. Olhou para ele, tão lentamente quanto alguém sonolento podia olhar, e também se assustou. Tirou os braços de cima do jovem bruscamente, e se sentou ereta.
- Ah, você acordou... Desculpe, eu caí no sono – disse ela, corada. Passava a mão no cabelo, arrumando-o, tentando disfarçar o constrangimento. Mas Dante podia ler o sentimento, assim como lia algo mais complexo, que ele não conseguia entender.
- Não tem problema... Bem, bom dia, acho – disse ele.
- Boa tarde, na verdade, já são quatro horas – respondeu, olhando no relógio.
- Ah sim...
Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos constrangedores. Aparentemente, não sabiam como reagir àquela situação.
- Por quanto tempo eu dormi? – perguntou Dante, finalmente.
- Cinco dias, acho.
- Isso tudo?
- Sim. Parece que nós dois gostamos de dormir bastante, – disse ela rindo – Gavea me contou que você cuidou de mim depois do que aconteceu no parque. Eu me senti na obrigação de fazer o mesmo. Por isso fiquei aqui do lado da cama...
Por alguns segundos Dante corou. Lembrou-se das vezes em que teve de limpar o corpo da menina, e sentiu-se constrangido.
- Você não...? – começou, olhando para ela.
- Eu não...? – começou Dandara também, sem entender.
- Deixa pra lá – disse ele, rindo um pouco. Era embaraçoso – Afinal, qual é o seu nome?
- É mesmo, tinha me esquecido! Prazer Dante, sou Dandara – disse, lhe oferecendo a mão para um cumprimento.
- Prazer – disse ele, segurando a mão dela. Era estranho se apresentar à alguém que já sabia seu nome.
Novos segundos constrangedores. Ele olhou para o quarto, e notou que não estavam mais no antigo “esconderijo”. Era um ambiente bem decorado e espaçoso. As paredes possuíam desenhos de pássaros, o chão era feito de madeira envernizada. A sua frente havia uma porta, e ao lado dela um guarda-roupas. Ao lado da cama havia uma escrivaninha com um celular.
- Onde estamos?
- Na casa de Gavea. Ele me contou que estávamos em um casebre abandonado antes... Ele nos trouxe para cá, enquanto ainda estávamos desacordados.
- Então estamos de novo na W-1036?
- Não, estamos na W-1025.
“Então Gavea também tem uma casa nessa cidade?”, pensou Dante.
- Gavea está aqui?
- Sim, está.
O garoto ficou sério, e Dandara notou. Para ela, Dante era um mistério. Era um garoto desconhecido, do qual ela nada sabia, porém ele havia salvado sua vida, e isso criava de certa forma um elo entre os dois. Por isso passara várias horas sentada ao lado da cama, esperando ele acordar. Várias vezes ele sussurrara coisas como “morte”, “quero encontra-lo”, “dói muito”, e em quase todas, sua expressão se tornava bem próxima da que ele apresentava naquele momento.
O jovem se levantou com dificuldade da cama, e a menina levantou de um salto para segurá-lo.
- Você não pode levantar ainda, tem que repousar!
- Eu preciso falar com Gavea, não posso esperar. É algo importante.
Ela tentou segurá-lo novamente para que deitasse, mas ao olhar em seus olhos, perdeu toda vontade. Ela sentiu um calafrio percorrer seu corpo, e soltou-o.
- Eu realmente preciso falar com ele...
- Tudo bem.
O olhar dele era ainda mais assustador que o de Roberta, pensou. Dante caminhou com certa dificuldade e ela o seguiu, ajudando-o. Abriu a porta do quarto e o levou até a sala.
Gavea estava sentado em um espaçoso sofá, assistindo ao jornal. Tinha feito a barba, e agora usava roupas mais comuns: uma camiseta larga vermelha, e uma calça marrom. Era um ambiente extremamente luxuoso: Havia uma longa mesa de jantar com uma cesta de frutas no centro, vários móveis de madeiras raras, os sofás enormes e muitos objetos eletrônicos, como a televisão holográfica, que era grande demais para ser medida em polegadas. Ela exibia as notícias do dia: bombardeios em algumas cidades e conflitos da população com soldados. Algo comum naqueles dias. Assim que o velho percebeu sua chegada, levantou-se.
- Dante? O que você está fazendo de pé?! Como é que você deixa esse garoto andar nesse estado Dandara?
A menina ficou vermelha.
- Mas eu não...
- A culpa foi minha Gavea, desobedeci ela e levantei. Eu preciso falar com você. Sente-se. – respondeu o jovem com firmeza.
Ele sentou-se e esperou o senhor fazer o mesmo. Dandara ficou de pé, atrás do outro sofá.
- Bem, já que insiste tanto... O que é que você quer falar comigo com tanta urgência que o fez enviar uma carta, viajar tantos quilômetros, quase morrer, e ainda por cima recusar seu merecido repouso?
Dante respirou fundo.
- Onde está meu pai?
Gavea arqueou a sobrancelha.
- Porque eu haveria de saber?
- Não se faça de sonso. Você era a única pessoa em quem meu pai confiava, e ele desapareceu um ano depois que minha mãe morreu. Ele simplesmente me abandonou na casa de estranhos quando eu ainda era criança, dizendo que iria fazer uma viagem, e nunca mais voltou.
O ancião fez menção de dizer algo, mas Dante o interrompeu e continuou. Parecia querer desabafar todo seu sofrimento durante aquele tempo.
- A família com quem ele me deixou nunca gostou de mim. Era insuportável. Com dez anos eu fugi e fui morar na rua. Você não tem ideia do quão difícil foi. Tive que roubar e matar pra sobreviver – o jovem tinha as pupilas dilatadas e respirava de forma ofegante. Seus olhos brilhavam – até que por fim, os malditos soldados da união colocaram minha cabeça a prêmio. Tive que viver me escondendo, voltei pra antiga casa do meu pai, que era afastada das cidades, e fiquei enclausurado lá por cerca de três anos, só saía para caçar. Fiquei lendo as drogas dos estudos dele, na falta do que fazer... E descobri sobre os talismãs.
Ele olhou fixamente para Gavea, que ouvia atentamente o relato. Dandara também parecia interessada.
“Li sobre o que eles eram, de acordo com os estudos que você e meu pai fizeram, e comecei a entender pra que serviam.” – continuou – “Mas ainda não conseguia usá-los, pois não sabia nada da “língua original”. Então peguei os manuscritos que ele havia feito utilizando da língua, e passei a estudar os simbolos todos os dias. Por volta de oito meses depois que comecei, eu já conseguia entende-la”.
Gavea levantou a mão e encarou-o, perplexo.
- Você aprendeu a língua original em oito meses?
- Sim.
- Impossível.
- Estou dizendo, eu aprendi.
O velho levantou-se, parecendo ter perdido a razão pela primeira vez na vida.
- Garoto, eu levei... – ele parou de falar, como se percebesse que iria dizer algo que não devia – levei muito, muito tempo pra aprender essa língua. É impossível que alguém aprenda isso em oito meses. Até hoje eu não sei nem metade do que aquelas malditas runas dizem.
Dante olhou para baixo. Respirou, como se contivesse a vontade de fazer uma besteira.
- Gavea, podemos ser sinceros nessa conversa?
- Sim.
- Então, por favor, não tente esconder que demorou sei lá quantos mil anos para aprender a língua. Eu li os estudos do meu pai, e sei bem mais do que você imagina. E eu posso sentir quando você mente ou tenta omitir qualquer coisa.
Gavea ficou calado, olhando friamente para o garoto. Provavelmente não havia entendido a última parte sobre “sentir a mentira”.
- E é exatamente por isso que vim aqui falar com você. Tinha muita coisa no meio daqueles papeis, muita coisa mesmo. Acho que não preciso lhe dizer, você já sabe do que se trata. Eu quero respostas. Eu não estou atrás do meu pai, ele me abandonou. Quero saber sobre o que ele tem feito todos esses anos.
Dandara estava tensa. Havia muita coisa dita ali que ela não entendia, mas já tinha notado que estava ouvindo informações pelas quais pessoas dariam vidas para saber. O idoso permaneceu calado por alguns momentos.
- Tudo bem, você merece suas respostas. Mas como você disse que quer que sejamos sinceros, me responda antes: como conseguiu aprender a língua original em oito meses? Isso é impossível. Ainda não acredito.
Dante parecia ter perdido a pouca paciência que lhe restava.
- Kywah sciar Kalonyün! – exclamou.
Por um milésimo de segundo o ar pareceu ficar mais pesado. Nenhum dos dois jovens pareceu notar, mas Gavea percebeu. Ele ficou pálido.
- Viu? Eu sei falar a língua! Não me pergunte como, porque eu também não sei como aprendi tão rápido. Eu sei que é algo que as pessoas estudaram por milhares de anos e ainda assim não entenderam por completo! Eu simplesmente comecei a ler os papéis, e por volta do sexto mês eu comecei a notar que apenas de olhar para os símbolos eu já tinha ideia, de alguma forma, de qual era seu significado. E a partir dai minha leitura começou a fluir, e no oitavo mês eu já entendia perfeitamente. Também não sei explicar. Agora me responda!
Gavea estava mudo. Segurava o braço do sofá com força, e olhava assustado para Dante. Afinal, o que era aquele menino? Até mesmo o pai dele, que era um gênio no estudo da língua original, só sabia algumas várias frases decoradas para usar os talismãs.
- Espere um pouco Dante, o deixe respirar antes de te responder, calma... – disse Dandara, tentando acalmar o outro.
Dante olhou pra ela com impaciência, mas pareceu ter ficado menos tenso. Gavea respirou fundo várias vezes. Ele suava frio, mas por fim conseguiu retomar a conversa.
- Jovem, o que você disse é verdade. Eu demorei dois mil anos pra aprender o que sei sobre a língua original. Por isso estou tão assustado.
Dandara se sentou no outro sofá. Ela olhava para os dois, e parecia estranhamente calma, apesar da estranha situação que vivenciava.
- Olha, eu não quero atrapalhar a conversa de vocês, mas, sem querer dar uma de entrosada... Como raios alguém pode viver dois mil anos, e que droga de língua é essa que precisa de tanto tempo pra ser aprendida?
Dante sentou-se ereto, e olhou para o teto.
- Explica pra ela Gavea, posso esperar mais um pouco. – disse, com a voz entediada. Provavelmente estava tentando esconder a impaciência.
Gavea olhou para ela e deu um sorriso.
- Criança, eu tenho dois mil quinhentos e doze anos, mas isso eu explico depois. Sobre a língua...
- Pera ai, pera ai, pera ai, - interrompeu Dandara, perplexa – como é que você joga uma informação dessas na minha cara e fala que vai explicar depois?
- Eu imaginei que ele tinha uns três mil pelo menos. Mas até que ele está conservado – disse Dante, com um sorriso irônico.
- Tudo ao seu tempo, minha jovem, tudo ao seu tempo. Sobre a língua original, ou língua dos deuses, como era chamada, bem, ela foi a primeira língua a existir. Vou me limitar a dizer isso. O que a torna extremamente complexa é que não é simplesmente uma língua, ela é a “essência”, por assim dizer. Então não existem regras gramaticais nem coisa do tipo. É uma língua formada apenas por substantivo e verbos, ou “nomes” e “ações”. Cada ser existente, vivo ou não vivo, possui um nome singular nessa língua, e esse nome também possui uma grafia única. Não é uma escrita formada por letras, como a nossa. Cada palavra é formada por um símbolo diferente. São praticamente infinitos símbolos a serem aprendidos. E ainda que você descubra a que se refere um símbolo, tudo que temos hoje são as runas. Então seria impossível descobrir a pronúncia das palavras. A única forma que se tem para descobrir isso é procurando manuscritos de civilizações milenares, que já haviam começado o estudo dessa língua. Isso envolve anos de estudo para desvendar apenas alguns pouquíssimos símbolos.
Dandara ouvia com atenção, mas parecia ainda mais interessada na história sobre a idade do ancião.
“Certo, agora responderei as questões do Dante, e em algum momento de minhas explicações, explicarei sobre minha idade. Primeiramente, seu pai não me contou absolutamente nada sobre o que iria fazer. Mas eu já imagino o que é, pelo que estávamos estudando antes do incidente com sua mãe.” – Dante ficou tenso – “Responda-me Dante: o que descobriu sobre os talismãs?”
O garoto olhou para o chão, lembrando-se.
- Os talismãs são uma forma de alterar a realidade. Junto às palavras da língua original, ele cria algo chamado Campo Strivo, ou Campo Maravilhoso na nossa língua, algo parecido com “mágica”. O talismã dá a energia, e a palavra molda. É basicamente isso que estava escrito nos papéis.
- Exatamente. Quem descobriu esse Campo Maravilhoso fui eu, cerca de mil anos atrás. Mas de onde vem a energia dos talismãs, você sabe? Afinal, eles são simples pedaços de madeira.
- As placas.
- Sim, as placas. Foi por causa delas que seu pai sumiu.
Dandara estava inquieta. Podiam ao menos tentar explicar parte do que diziam.
- Que placas são essas? – perguntou.
- Bem, é meio complicado – disse Dante – eu mesmo não entendi muito bem. Era explicado bem superficialmente nas anotações.
- Na verdade, essas placas fazem parte de uma lenda antiga, sobre o surgimento universo. É uma longa história, mas já que essa também é uma longa conversa, acho que não tem problema se eu me der o luxo de conta-la.
“Existem várias teorias para o surgimento do universo, algumas mais difundidas, como o Big Bang, outras mais ultrapassadas e outras ainda sendo discutidas. Essa lenda é conhecida por pouquíssimas pessoas na atualidade, talvez no máximo vinte, vinte e três agora, contando com vocês e Maria." - Dandara franziu o nariz. Dante olhou sem entender, e sentiu certo rancor emanando dela. Ignorou aquilo momentaneamente e voltou a prestar atenção - "Antes do início, não existia nada. Ou existia tudo. Não existe bem uma definição, mas digamos que tudo que havia era uma consciência infinita, que possui um nome na língua original, que nunca nenhum humano descobriu. Essa consciência estava em metamorfose constante, gerando ideias e criando infinitas coisas. Não eram coisas físicas ou imaginárias, estavam em um campo além disso. É o que chamamos de Campo Maravilhoso.”
Ambos ouviam sem questionar, parecendo tentar processar tudo. Dante olhava seriamente para Gavea.
- Isso quer dizer... Quer dizer que os talismãs recriam de certa forma esse campo antes da existência do universo? Transforma coisas imaginárias em realidade?
- Digamos que sim. Os talismãs geram uma energia similar a esse campo e formam uma espécie de ponte entre real e imaginário, que utilizando das palavras, moldam a imaginação, transformam ideias em realidade.
“Continuando... Essa consciência bastava por si só, era eterna. Mas, não se sabe o porquê, em algum dado momento, algo dividiu essa consciência em duas partes infinitas. E a partir daquele momento, as duas metade de tornaram opostas, e nunca mais se uniram como antes. Cada uma se tornou uma consciência diferente, que passou a se tornar um ser. Elas não apenas transformavam-se e criavam coisas aleatoriamente, mas também passaram a ter vontades.”
“Dessa forma os dois seres começaram inicialmente a moldar a si próprios, em uma forma bastante parecida com a nossa. Foi a primeira vez que criaram algo parecido com o real. O corpo deles possuía uma forma real, porém sua constituição ainda era imaginária. Feito isso, um olhou para o outro, e o primeiro nomeou o segundo, e da mesma forma o segundo nomeou-o. Foram as duas primeiras palavras da língua dos deuses. Logo depois, deram o nome para a consciência inicial da qual nasceram. Esses são os três nomes que nenhum humano nunca soube, como eu já disse. Depois disso, ambos começaram a criar o universo, imaginando-o e transformando em realidade, movidos apenas pela vontade. Cada nova coisa que criavam, davam um novo nome. Dessa forma, podemos imaginar que o antigo conceito que demos aos nomes estava errado. Consegue me dizer o porquê?”.
Dante pensou um pouco, mas não conseguiu chegar a nenhuma resposta.
- Mas você não tinha dito que tinha entendido toda a língua? – perguntou Dandara.
- Não é isso, eu apenas consigo ler e traduzir qualquer runa que me der pra ler. Mas até ler a runa, eu ainda não sei da existência dela, como qualquer outra pessoa não sabe da existência de um texto, ou de uma palavra, antes de vê-los. – explicou, meio que tentando esconder a impaciência – Eu disse apenas que entendi a língua perfeitamente, porque pra mim, lê-la se tornou tão fácil quanto ler a escrita normal da minha língua. Isso não quer dizer que eu sei todos os conceitos de sua criação ou as verdades por trás dela.
Gavea deu um sorriso e iria retomar o discurso, porém manteve-se calado ao ver que Dante parecia tonto. Ele balançou a cabeça rapidamente e voltou a prestar atenção no senhor.
- O que foi? Continue.
Dandara olhou para o garoto. Estava suando.
- Sr. Gavea, aceita algo para beber? – perguntou ela, ainda olhando para o rapaz.
- Eu estava pensando justamente nisso, mas pode deixar que eu mesmo pego na cozinha. Já volto para continuar a história, me esperem.
Ele saiu em direção à cozinha, deixando um Dante impaciente para trás. O garoto suava e respirava fundo. A má alimentação nesses cinco dias parecia estar se evidenciando agora, e a menina sabia disso. Ficaram em silêncio por algum tempo. Dante passava a mão no tecido macio do sofá e Dandara olhava para o teto. Era impressionante o quanto ficavam constrangidos quando ficavam sozinhos.
- Onde está Maria? - perguntou ele.
- Não sei, ela saiu um pouco antes de você acordar. – respondeu Dandara – Não conversamos muito, sei lá porque.
- Essas duas não se deram bem desde que Dandara acordou. Parece que são completamente opostas – disse Gavea rindo, enquanto voltava com uma bandeja com três xicaras de café, leite, chocolate e uma vasilha com pães, presunto e queijo.
Colocou em cima da mesinha de centro. Ele pegou uma xicara de café e a jovem outra. Dante olhou para eles.
- Isso tudo é pra mim?
- É claro garoto. Faz quase uma semana que Dandara te dá comida na boca, mas do jeito que você estava, mal engolia o alimento. Tive que comprar umas cápsulas alimentares pra você, mas ainda assim não é a mesma coisa que comer. Sirva-se.
Dante pegou um pouco do pão com presunto, e deu uma mordida.
- Obrigado. Desculpa o estranhamento, é que faz alguns anos que não me oferecem algo sem que eu peça.
Dandara olhou para ele, tentando entender. Mas obviamente não entendia, durante toda sua vida foi mimada e superprotegida pelo pai.
- Voltando a explicação do porquê de o conceito estar errado... Bem, eu disse antes que cada coisa existente possui um nome único nessa língua, o que é verdade. Mas nesse caso, quando os dois deuses criaram tudo que existe, se eles criassem uma pedra, por exemplo, e depois criassem outra, elas teriam que ter nomes diferentes, certo? Mas dessa forma, se você fosse definir a essência de pedra no geral, não existiria.
Ambos concordaram.
- Sim, mas e dai?
- E dai mocinha, que na verdade, cada coisa existente tem na realidade, dois nomes, e não apenas um. O nome da sua essência, e o seu nome como indivíduo único. Ou seja, eu sou humano por essência, ou Umonis, na língua original, mas como indivíduo, eu tenho um segundo nome, único, o qual eu não compartilho com mais nenhum outro ser.
- Entendo, então nesse caso, um planeta, ou Gmuk, também tem um nome próprio? - perguntou Dante, lembrando-se dos seus estudos.
- Sim, tudo. Desde as pequenas pedras ou plantas, até planetas ou estrelas. Mas não confundam isso com uma classificação semelhante a “espécie”, “classe” ou qualquer coisa do tipo. Como eu disse antes, não existe nada além de “nomes” e “ações” nessa língua. Não existe algo como “animal” ou “mamífero”, esses são termos criados na linguagem dos humanos, a partir de línguas variantes da original. Existe apenas o nome da essência. Se os seres são diferentes em essência, tem nomes diferentes. E é isso. É bem mais complicado que uma simples classificação.
Dandara parecia pensar.
- E como sabemos qual é o nosso nome como indivíduos? – perguntou.
- Não sabemos. Já é difícil demais saber os nomes gerais, imagina saber os individuais. Pense comigo: imagine se ninguém na Terra pudesse ter nome igual a de outra pessoa, desde que os humanos surgiram. E fossem nomes inventados, que não existissem antes pra denominar nada. Qual a chance de alguém descobrir seu nome, independente da maneira?
- Zero.
- Exato. Só existem duas maneiras de saber um nome, que logo explicarei.
Dandara fez um bico. “Que coisa chata, ele só deixa as coisas para depois”, pensou.
- Agora, recomeçando de onde parei... Ah sim, eles começaram a criar tudo no universo. Inicialmente, criaram apenas as matérias “mortas”. Quando concluíram, um deles achou que ainda faltava algo, que tinham capacidade de fazer mais. E assim ele criou novos seres, e colocou um pouco de sua própria consciência em cada um deles. Esses seres criaram vida, e alheios a existência dos dois deuses, começaram a fazer a única coisa que poderiam fazer: viver. Porém, inicialmente, nenhum dos seres possuía sentimentos, eles apenas pensavam. Nem mesmo os Dois Primeiros podiam sentir, na realidade.
“Porém, novamente, como quando haviam se separado, algo inexplicável aconteceu. Suas consciências, agora naquelas novas formas que haviam construído, começaram outra metamorfose. As ideias agora não se transformavam apenas em vontade, mas também em sentimentos. Algumas vezes tédio, outras tristeza, outras tantas alegria. E outras tantas ódio. Inveja. Rancor. Esses foram os sentimentos do segundo Deus. Ele sentia inveja do primeiro por ter criado todos aqueles seres vivos. Sua inveja começou a crescer, e aos poucos se transformou em ódio. Por fim, eles descarregou todo seu ódio sobre a criação do irmão, colocando um pouco dos piores sentimentos em cada um daqueles tantos indivíduos. Logo começaram a se matar, e destruir sua própria casa. O primeiro Deus, tentando evitar o pior, colocou neles os melhores sentimentos que possuía. Assim, controlou a matança generalizada, reestabelecendo o equilíbrio. Porém o segundo não tinha saciado seu ódio. Em um ataque de fúria, realizou um ato inimaginável, até para um Deus: Utilizou quase toda sua consciência para produzir os piores seres do universo. Diz a lenda que os Possessun, por exemplo, surgiram daí.” – Dante novamente ficou tenso. Respirava fundo enquanto mastigava – “A única parte de sua consciência que ele não usou para isso, foi sua essência, que ele transformou em um novo ser, tão limitado quanto os outros, porém imortal, e enviou para um dos infinitos planetas, ao acaso. Vocês já devem imaginar qual planeta a lenda cita, não é?”.
- A Terra, claro. – afirmou Dandara. Dante concordou com a cabeça.
- Sim, exatamente. Se o pri...
- Espere, espere, eu tenho uma dúvida – interrompeu Dante – O Cuulum é um desses “piores seres”?
Dandara estremeceu. Lembrava-se do cão, e Gavea contara para ela sobre o que ele era.
- Não, como já disse, o Cuulum é de certa forma pacífico. Na realidade, ele é apenas um ser muito antigo, um dos primeiros criados pelos deuses irmãos, que evoluiu de tal forma que se uniu a própria natureza. Existem muitos seres que evoluíram para algo além da imaginação sem interferência dos dois deuses ou dessa batalha entre eles.
- Entendi... Bem, continue.
- Onde eu tinha parado... Ah sim. Se o primeiro Deus não tivesse emoções, provavelmente destruiria aquele universo e criaria outro, e acabaria de vez com o problema. Porém ele havia começado a amar aquelas vidas, e não aguentava mais ver tantas mortes. Então ele também tomou uma decisão drástica. Criou dez seres, bem diferentes dos outros, e deu a eles o nome de Kardooes, que na tradução mais próxima pra nossa língua, são chamados de "guardiões". Fez eles a sua imagem e semelhança, e deu pra eles boa parte de sua consciência, porém limitando-os de certa forma. Deixou-os sem sentimentos, para que pudessem cuidar do universo sem se perder. Foram os únicos seres vivos que realmente viram o criador. Logo depois ele usou quase todo o restante de sua consciência, e criou quatro placas de consciência, chamadas placas Boraht, que não possuí uma tradução para nossa língua. Nelas, colocou todos os “nomes” e “ações” criados no universo, na forma das runas que hoje as representam, e dessa forma, passou para os guardiões a língua original, mais tarde chamada de língua dos deuses, língua Boraht e também de lingua Kalonyün, que é o nome dado à própria língua. Ele ordenou que matassem qualquer ser criado pelo segundo Deus, mas que de forma alguma ferissem qualquer criação que fosse dele. Ordenou também que colocassem as placas na Terra, para protegê-la dos monstros criados pelo irmão, e, se algo acontecesse que ameaçasse as vidas daquele universo, que os dez usassem a energia nas placas e as palavras da língua original para tentar acabar com esse mal. Logo depois disso, assim como o segundo Deus, transformou-se em um ser limitado, mas imortal, e também se enviou para o planeta que futuramente seria nomeado pelos humanos de Terra. Fazendo isso, ele procurava ficar próximo do segundo Deus, para impedir que ele retomasse sua antiga forma algum dia, e destruísse tudo aquilo que ele havia criado. Dessa forma, a Terra acabou se tornando o centro de toda essa guerra.
- Uau. É uma história bem fácil de acreditar. – disse Dandara, em tom irônico.
Gavea deu uma risada.
- Realmente, é uma história fantasiosa, e não dá pra saber se é verdade ou não. – Dante sentiu algo vindo do velho, mas não soube ler bem suas emoções – Mas enfim, reza a lenda que os guardiões fizeram como o primeiro pediu, e criaram um altar de proteção, com a ajuda das palavras. E lá as quatro placas ficaram, criando um escudo para a terra. O tempo passou, e as vidas em outros planetas começaram a ser dizimadas pelos monstros criados pelo segundo, e alguns poucos planetas continuaram tendo vida, graças a constante vigília dos guardiões. Enquanto isso, na terra, a natureza seguiu seu caminho, muitas vidas evoluíram, até que por fim os humanos surgiram. A existência da raça humana é muito mais antiga do que a que os ciêntistas imaginam, segundo a lenda. Eles viveram por vários séculos, enquanto as placas estavam aqui no planeta. Eis então, que um belo dia, na época de ouro dessas civilizações, um homem roubou uma das placas do altar, e desapareceu completamente. Isso rompeu o “escudo” criado para proteger o planeta, e os guardiões tiveram que pegar as outras três placas e escondê-las. Depois disso, a Terra ficou desprotegida, e foi aí que os monstros do segundo começaram a invadir e a trazer destruição. A raça humana foi completamente dizimada, restando alguns poucos que perpetuaram nossa existência depois. Os guardiões então voltaram e passaram a defender a Terra, permitindo que a vida pudesse continuar, mesmo que muitos ainda morram pra essas bestas. Até hoje a quarta placa está desaparecida, segundo essa "fantasia", e por isso ainda estaríamos desprotegidos. E essa é a história de como tudo surgiu, até os dias de hoje, e a história das placas.
- Certo, mas o que isso tem a ver com os talismãs e com sua idade, no final das contas? – perguntou Dandara.
- E com meu pai? – completou Dante.
Gavea respirou fundo. Realmente, uma longa conversa.
A porta da sala se abriu. Maria entrou com várias sacolas nas mãos.
- Oi para todos! – disse animadamente, colocando as coisas na mesa – ah, Dante, você acordou!
Ela deu um sorriso alegre, mas pareceu mais retraída. Dante sentia seu nervosismo quando ficava próxima dele. Será que ele ainda causava medo nela? Não sabia dizer bem, afinal, só sentia sentimentos, não lia pensamentos. Dandara olhava com certo desprezo pra recém-chegada.
- Oi. Poisé, acordei – disse o jovem, com um sorriso.
- Estão conversando?
- Sim, estava contando para os dois aquela longa história sobre o universo. – disse Gavea com um sorriso – que bom que você chegou Maria, estava pra começar uma parte da história que você ainda não conhece.
- O quê? Ainda tem coisas mais absurdas do que aquilo que me contou no caminho pra cá? – perguntou a jovem.
- Sim, sim, sente-se.
Ela obedeceu, tirando os sapatos e se sentando no sofá, ao lado de Dandara, que não pareceu muito alegre. Dante podia sentir o que ela estava sentindo. Chegou a conclusão de que seria melhor contar pra garota que sabia ler sentimentos, pra que nas próximas situações ela tentasse esconder de alguma forma.
- Vamos lá... A relação das placas com os talismãs é que a energia deles é tirada das Boraht. Eles funcionam como uma versão genérica das placas: transformam imaginação em realidade, em uma função específica, durante alguns poucos segundos. Para fazer um talismã, pega-se um objeto qualquer, geralmente um pedaço de madeira, e se inscreve a runa do poder que deseja adicionar. Depois disso, coloca-se a madeira em contato com as placas, e recita-se o nome do poder. Depois disso, a madeira passa a agir como uma placa, e pode realizar qualquer ação que envolva o nome daquele poder inscrito. Simples assim.
Dante levantou a mão.
- Espera, mas isso é absurdo. Se for assim, você está afirmando que a placa existe, e ainda mais absurdo, que tem contato constante com ela.
- Eu nunca disse que as placas não existiam. Eu disse apenas que não se sabe se a história é verdadeira, mas as placas definitivamente existem. E sobre eu estar em contato com elas...
Gavea tirou algo do bolso. De início, os três pensaram ser um caco de vidro, mas olhando mais atentamente, prenderam a respiração. Era um fragmento de algo que parecia ser feito de ar, mas ainda assim era sólido. Parecia imaterial. E dentro, era possível enxergar uma grande quantidade de pequenos pontinhos de luz, se movendo velozmente: Runas, bilhões ou trilhões, em tamanho quase que microscópico.
- Onde você conseguiu isso? – perguntou Dante.
- Bem, quando o tolo humano tirou as placas do altar criado pelos guardiões, ele quebrou sua base que era fixa no chão, deixando três pequenos fragmentos. Esses fragmentos foram deixados lá, até que um homem os encontrou, e eles foram passando de mão em mão, durante os séculos. Esse fragmento chegou até mim há muitos anos atrás, não importa como. – Dante sentiu os sentimentos do ancião, e entendeu em parte. Não o julgou, apenas aceitou – Seu pai tem outro desses fragmentos, garoto. E o outro eu não imagino com quem esteja.
- E o que isso tem relação com sua idade? – perguntou Dandara. Era o que ela mais desejava saber.
- O que tem a idade dele? – perguntou Maria, sem entender.
- Ah, é verdade, esqueci-me de lhe dizer. Tenho dois mil quinhentos e doze anos.
Ela riu como se fosse uma ótima piada. Dante sorriu, mas Dandara olhou com desprezo. Gavea manteve-se olhando pra ela.
- O que, sério?
- É sim. Por que, pareço mais velho? – perguntou ele, se olhando no reflexo do vidro da mesinha de centro. Todos riram, menos Maria, que estava perplexa.
- Como assim?
- É o que vou explicar agora. Eu teorizo que os deuses utilizaram um valor aproximadamente parecido com o que existe dentro desse fragmento para criar o universo. Logo vocês devem imaginar quanta energia existe aqui dentro. Apenas de tocar isso, eu absorvo uma quantidade “x” dessa energia. Ela é infimamente pequena, mas para um ser humano, é muita coisa. Isso acaba sendo absorvido pelo meu corpo, e de alguma forma que ainda não sei explicar, aumenta minha expectativa de vida. Não sei dizer, mas imagino que enquanto eu carregar essa pedra, serei imortal - disse com simplicidade, guardando-a de volta no bolso.
Os três jovens levantaram as sobrancelhas. Era estranho ouvir alguém falando com tanta naturalidade sobre ser imortal.
- Mas então quer dizer que essa lenda é real? Se você está citando tantos acontecimentos como sendo verdadeiros... – questionou Dandara.
- Isso depende muito. O cristianismo, o islamismo, dentre tantas outras religiões, também se baseiam em vários acontecimentos reais. O que realmente conta nesses casos é a fé.
- Ok, mas deixando de lado essa parte da discussão, por que é que você não utiliza logo o próprio fragmento pra realizar essas “magias”? Seria bem mais simples e prático, não? – perguntou Dante.
- Não, garoto. A placa não foi criada pra ser usada por humanos. Um dos motivos desse fragmento ter passado de mão em mão foi esse. Muitos morreram tentando fazer isso. Esse sistema dos talismãs foi uma forma que encontramos de “burlar” essa limitação.
- Certo... Mas agora a última pergunta: onde meu pai entra nessa história?
- Seu pai foi procurar a quarta placa perdida.
- Para? – perguntou Dante. Não conseguia pensar em nenhum motivo pra seu pai fazer isso.
- Pense Dante.
Calafrios. Não seria possível.
- Não, meu pai não é tão estúpido assim...
- Sim, ele é. Ele pensa em trazer sua mãe de volta. Várias lendas cercam essas placas, e pouco se sabe sobre quais são verdadeiras.
- Mas como ele pretende achar essa placa? Ela não está desaparecida há tempos? – perguntou o rapaz. Havia raiva em sua voz.
 - Não, não está.
- Mas você disse que...
- Eu apenas contei a lenda. Eu disse que alguns pontos poderiam ser fantasiosos.
- Então onde ela está? – perguntou o jovem, exasperado. As garotas estavam caladas, tensas.
- Não sei. Está com o governo.
- Com o governo?
- Sim. Não me pergunte, pois não sei absolutamente nada. Seu pai apenas teorizava conspirações. Eu na época achava que ele estava alucinando, mas pra ele ter saído à procura, deve ter algum embasamento. Mas pode ter certeza: se essa placa está com o governo, seu pai só pode ter ido para um lugar.
- E que lugar seria?
- A Shafutz, ou “Rebelião”. As pouquíssimas pessoas que sabem sobre essa lenda ou sobre a existência das placas, em sua maioria estão lá. É um grupo de revoltados contra o atual governo. Seu pai falava sobre esse lugar, e foi onde começou a pensar sobre o assunto. Se existe uma possibilidade de ele conseguir essa placa, seria enfrentando o governo com eles. - disse, olhando em seguida para a TV. O jornal já havia acabado. Um filme infantil passava, e pequenos carrinhos holográficos invadiam a sala.
Dante parou os olhos por alguns momentos, voltados para o chão. Maria permanecia calada, provavelmente ainda pensando no que deveria acreditar. Dandara tinha uma ruga entra as sobrancelhas. Não sabia por que, mas aquele assunto todo havia feito ela se lembrar da aula que tivera com Renato, antes dele ser preso. Mordeu o lábio.
- Gávea, você sabe como encontra-los, não sabe?
- Infelizmente sei. Fui uma vez lá com seu pai, antes dele parar de falar comigo.
- Por que infelizmente?
- Por que sei que você vai pedir pra que eu te leve, e eu preferiria que nenhum de nós dois tivesse de ir até lá. Mas como sei que nada te convencerá do contrário... Sim, eu lhe levo.
Dante sorriu. Gavea era um bom amigo.
- Você esqueceu de contar algo... Como descobrimos nosso verdadeiro nome? - perguntou Dandara.
- Hum... Ou um dos deuses deve contar pra você, caso existam, ou então terá de achar a placa que possui a runa de seu nome gravado. Se achá-la, a runa se mostrará pra você. - explicou o ancião.
A menina pensou por alguns instantes, como se tramasse algo.
- Eu também vou. – manifestou-se.
O ancião e o rapaz se olharam.
- Dandara, nós cuidamos de você, e você quis ficar aqui até que Dante acordasse, – começou Gavea – Mas não acha que deve voltar para sua família? Devem estar preocupados. Quem é seu pai?
- Não interessa, e eu não quero voltar. Eu vou com vocês. – decidiu.
- Não, não vai.
- Se não deixarem que eu ir, então ferrados. Eu ouvi a conversa mais interessante da minha vida essa tarde e nada garante que eu vá ficar de boca fechada. – disse ela, em um tom de desafio, olhando para o teto.
Dante e Gavea se olharam de novo. Realmente, tinham sido inocentes nesse ponto. Dante olhou pra ela novamente, com raiva. Começou a ficar irritado com a atitude da garota.
- Tudo bem, levamos você. Mas não pense que está no controle. Se não tivesse sido tão gentil a ponto de ficar cuidando de mim, apoiaria que matássemos você – disse ele, em tom ameaçador. Gavea olhou para o rapaz, assustado com a atitude. – E não adianta fazer essa cara de corajosa. Eu consigo sentir os seus sentimentos, e você acabou de sentir uma pontada de medo quando falei isso.
Ela pareceu pálida. Olhou para Gavea e Maria. Maria confirmou que era verdade. Ela engoliu em seco.
- Só tem aberrações aqui?
- Eu sou normal – disse Maria, com um sorriso.
“Não, não é”, pensou Dandara, com desprezo. Mas tinha conseguido o que queria, e estava feliz. Não precisaria voltar para casa e nem pra escola, e finalmente parecia que sua vida ia se tornar interessante. Talvez pudesse também salvar o professor Renato. E quem sabe até descobrisse seu nome. Seria divertido.
- Eu tenho que pensar se também irei...
- Maria, será perigoso - disse Gavea.
- Justamente por isso estou pensando em ir. Não quero que vocês dois se machuquem.
- E você salvaria a gente? - perguntou Dante, rindo.
- Bem, acho que vou preparar o jantar para todos, está tarde – disse Maria, ignorando a piada do garoto. Dante havia comido todo o lanche servido por Gavea, mas ainda estava com fome. Permaneceu sentado, pois seu corpo ainda doía – Dandara, pode vir me ajudar?
- Claro. – disse a outra secamente, acompanhando-a para a cozinha.
Os outros dois ficaram sentados na sala, sozinhos. Desligaram a televisão, e mergulharam em um estranho silêncio. O único barulho que ouviam era o da conversa abafada das garotas, no outro comodo. Ficaram encarando um ao outro, em uma conversa sem palavras, por alguns intermináveis minutos. Por fim Gavea sentou-se ereto, e passou a mão na barba feita.
- Bem, foi uma longa tarde de conversas...
- Sim, mas eu ainda tenho uma última pergunta. – interrompeu Dante.
- Faça.
- Toda mitologia ou religião que tem uma teoria da criação, também tem uma teoria do fim...
O idoso esboçou um sorriso.
- Você quer que eu te conte?
- Acho que sim.
- Bem, dizem que, depois que vieram pra cá, os deuses entraram em um ciclo de vidas. Eles morrem, como todos os seres, mas sua existência imortal faz com que revivam em um novo ser de mesma essência. E, segundo a lenda, algum dia um desses deuses trará fim a tudo aquilo que conhecemos, e nada restará dessa grande destruição. Seria a morte do universo.
Dante engoliu em seco.
- Mas também reza a lenda de que um escolhido, dentre uma das muitas vidas existentes nesse planeta, nasceria com um grande poder, – continuou Gavea, com um sorriso – e que ele, e somente ele, com esse poder, poderia parar o Deus.
Gavea levantou-se, e saiu da casa, cantarolando, deixando Dante só com seus pensamentos.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Capítulo IV - Começo


Era um dia nublado. As casas simples daquele local, unidas a grande quantidade de árvores e a estreita rua de terra, retratavam o que parecia ser o cenário da cidade W-1036 em algum tempo passado. As nuvens pesadas anunciavam a chuva que logo viria, e o vento forte e gélido trazia calafrios ao pequeno garoto. Tinha pouco mais que cinco anos, mas andava com segurança, e parecia bastante maduro, dentro daquele pequeno casaco de couro e das minúsculas botas negras. Tinha cabelos brancos, e a pele macia de criança parecia conter toda inocência do mundo, contrastando com os olhos completamente negros, que pareciam guardar a experiência e a dor de milhares de anos. Ele corria alegremente atrás de uma borboleta, próximo a um homem que andava calmamente no centro da rua, se desviando das poças lamacentas que surgiram graças às chuvas seguidas nos dias anteriores. Usava um sobretudo preto, e um chapéu em tonalidade igualmente escura escondia seu rosto nas sombras. Seu cabelo castanho estava mal lavado, as mãos estavam nos bolsos, e a cabeça voltada para o chão, aparentemente pensando em algo.
A criança, que corria despreocupada pela rua, conseguiu notar que havia algo de errado, mesmo com a pouca idade. Parou e olhou para a triste figura que vagava, aparentemente sem rumo. Correu em direção ao homem, se sujando ao pisar na lama. Puxou o tecido do sobretudo, chamando sua atenção, e pôde ver: um brilho iluminava os olhos do rapaz. Mas não por muito tempo, pois o mesmo rapidamente passou as mãos na face, limpando as lágrimas da visão do pequeno, que preocupado, não conseguia entender o que acontecia. Algo estava realmente errado.
- Papai, o que aconteceu? Onde estamos indo? – perguntou a voz fina e preocupada.
Um sorriso surgiu na expressão dura do homem, provavelmente tentando passar confiança ao filho. Não queria que ele ficasse preocupado. Porém não conseguiu manter a feição, e seu rosto novamente virou uma máscara da solidão.
- Está tudo bem, Dante. Papai já lhe disse antes de sairmos, estamos indo conversar com um velho amigo... – disse ele, a voz fria e cansada – quero que se comporte quando chegarmos, tudo bem?
A criança confirmou com a cabeça, mas continuou preocupada. Dante andou ao lado do pai durante mais algum tempo, agarrado à sua mão, quando finalmente pararam em frente a uma casa branca, com portas de madeira pintadas em azul e nenhuma janela. Ao se aproximarem, Dante percebeu que na maçaneta havia alguns desenhos estranhos. O pai bateu três vezes na porta, e logo ouviram passos ecoando dentro da casa. Com um rangido fraco a porta se abriu, e um homem estava parado, olhando-os com uma expressão interrogativa. Seus cabelos eram grisalhos e longos, e a barba estava feita. Usava um manto estranho, antiquado e azulado, com detalhes em verde e laranja.
- Desculpe o incômodo a essa hora da manhã, Gavea... – disse o homem.
- Ora... Que surpresa Nicolau! Entre, entre, irei servir chá para vocês, está fazendo frio... – disse o senhor com um sorriso no rosto.
- Obrigado... Preciso mesmo conversar com você...
Pai e filho entraram na casa. Dante estava novamente risonho, encantado com a decoração. Nicolau parecia já ter entrado lá antes, e não se importou muito com o ambiente estranho ao seu redor. Pelo contrário, havia um tom de urgência em seu olhar enquanto Gavea estava conduzindo-os para os sofás. A casa era enorme, apesar de parecer minúscula do lado de fora. As paredes internas também eram pintadas de branco, e nelas havia quadros e obras estranhas, que pareciam ter sido feitas pelo próprio ancião. No teto pendia uma grande luminária, e na sala havia dois sofás espaçosos de cor caramelo, junto a um belo tapete e uma lareira, onde o fogo dançava. Próxima a parede, havia uma mesa de madeira robusta, mas elegante, e ao lado de uma porta havia uma escadaria enorme que dava para o andar de cima.
- Sentem-se, sentem-se, irei preparar o chá e já volto... – disse Gavea, antes de sair para outro cômodo.
Dante estava entretido com a lareira, admirando o fogo e passando os dedos sobre as chamas. O pai parecia despreocupado com a segurança do menino, e apenas fixava os pés, sentado no sofá macio. Sobre uma mesinha a sua frente, havia algumas revistas com fotos de animais. O garoto olhou o pai. Medo. Era tudo que seus olhos refletiam para o filho. Aquilo o assustava. Nunca tinha visto Nicolau assustado daquela maneira.
Passado algum tempo, Gavea voltou à sala, com uma bandeja prateada nas mãos, que trazia três xícaras de chá quente. Ele tinha um sorriso no rosto, e dava passos rápidos apesar da idade avançada.
- Aqui está o chá de vocês... Espero não ter demorado! – disse o homem, enquanto servia os convidados – há... Você não sabe como eu estava ansioso por uma visita, ando muito entediado ultimamente... Já me cansei de pintar, esculpir, costurar... Ontem mesmo, passei o dia plantando samambaias na entrada da casa, estava me preparando para regá-las quando vocês chegaram... Acho que elas... – começou a dizer ele, quando notou o olhar apreensivo de Nicolau preso ao chão. Aprumou-se, e o sorriso no rosto foi substituído por uma expressão mista de curiosidade e preocupação – bem... Acho melhor deixar as novidades para depois. Diga-me, meu caro, o que veio fazer em minha casa tão cedo nesse dia nebuloso?
A figura triste sentada no sofá manteve o olhar cabisbaixo por alguns momentos, antes de levantar a cabeça para responder o senhor. Seu olhar mostrava determinação, apesar de tudo.
- Gavea, tenho um pedido... E só você pode me ajudar... – disse o homem, com a voz rouca pelo tempo extenso em que ficou calado.
- Hm... Bem, minhas visitas costumam quase sempre vir até aqui para me fazer pedidos... – disse o outro, com um sorriso discreto – bem, me diga o que deseja.
- É minha mulher...
- Letícia? Aconteceu algo...?
- Na verdade... Sim... Bem, acontece que... – Começou o homem, mas logo percebeu que Dante prestava atenção na conversa. O nome de sua mãe parecia ter despertado seu interesse. Nicolau não queria isso – Dante... Por que não vai brincar lá fora?
- Está frio papai... Não quero sair... – disse o garoto, fingindo que havia voltado a brincar com o fogo.
- Tudo bem Dante, eu tenho um quarto lá em cima cheio de brinquedos. Vamos lá que eu te mostro – disse o velho com um sorriso carinhoso, passando a mão na cabeça do menino e segurando em sua mão para levá-lo.
Subiram as escadas calmamente. Elas davam para um corredor com várias portas em cada parede. No final do mesmo, havia uma única porta solitária, que era adornada desenhos iguais da maçaneta da entrada da casa. Gavea conduziu Dante até a primeira porta, e abriu-a. Entraram em um quarto amplo e sem janelas, como toda a casa. Havia várias estantes, todas cheias de livros e brinquedos. Provavelmente eram relíquias guardadas pelo senhor durante muito tempo, mas ele não pareceu se preocupar em deixar o menino usar o que quisesse. Dante ficou surpreso e admirado com tudo aquilo, parecia não saber o que olhava primeiro.
- Gostou? Pode brincar com o que quiser... Você sabe ler?
- Sei sim! Papai me ensinou... – disse o menino, em tom inocente.
- Sabe? Bem, se quiser ler então, também pode pegar algum desses livros, tem todo tipo de história... Vou descer para terminar minha conversa com seu pai. Quando eu acabar, venho trazer alguns biscoitos para você, tudo bem?
- Sim! – respondeu o garoto com um sorriso no rosto – obrigado!
O ancião deu um sorriso e fechou a porta. Era raro encontrar crianças daquela idade tão educadas. Dante pôde ouvir os passos do homem descendo a escadaria. Apesar de ter aceitado ficar no quarto, ele não ia brincar nem ler. Queria ouvir a conversa. Queria entender o que havia de errado com sua mãe. Já fazia dias que ela estava trancada no quarto, e seu pai apenas dizia que ela estava doente.
Encostou o ouvido na porta, e pode ouvir que os homens haviam voltado a conversar no andar de baixo. Mas a porta era muito grossa, e só conseguia entender umas poucas palavras. Apesar de precoce, sua cabeça de criança tinha medo de abrir a porta para escutar melhor e acabar levando uma bronca. Mas havia alguns pontos da conversa em que falavam mais alto, e o menino pôde ouvir algumas palavras: “possessun”, “exorcismo” e “morte”. Ficou assustado. Não sabia o que significava possessun nem exorcismo, mas sabia exatamente o que significava morte. E estavam falando de sua mãe. Será que sua querida mãezinha iria morrer? Só podia se perguntar. Foi para um canto do quarto, e sentou-se abraçado aos joelhos, os olhos fixos no chão. Não queria brincar, não queria ler, nem ouvir, apenas esperar.
A angústia perdurou por alguns minutos, e então ele pôde ouvir claramente a voz de seu pai gritando no andar de baixo. Ouviu passadas fortes subindo as escadas, e a porta se abriu com violência. Nicolau estava arfando.
- Vem filho, vamos embora – disse ele, em um tom brusco, a respiração alta.
- Não vai ter biscoito? – perguntou o pequeno, calmo e inocente.
- Dante, vem logo! Está na hora de ir embora!
O pai estava nervoso. O garoto se levantou e foi em direção ao homem, que segurou sua mão, e levantou-o, segurando o pequeno em seu colo. Desceu a escadaria em passos rápidos. Gavea estava esperando na porta.
- Nicolau! Fique um pouco mais, você tem que esfriar a cabeça...
- Não quero esfriar nada! Se não pode me ajudar, me esqueça, não tente me atrapalhar! Vou fazer o necessário! – disse o homem, os olhos brilhando, talvez por estar segurando a vontade de chorar, talvez por raiva.
O pai saiu da casa, carregando o filho no colo, sem olhar para traz. Começava a chover agora, e as gotas finas batiam em seu rosto. O senhor saiu da casa, e ficou parado, olhando os dois se afastarem.
- Nicolau! É a única forma!
- Eu não vou matá-la! – disse o homem, parando abruptamente. Soluçava, e em seus olhos, as lagrimas escorriam.

Era uma noite chuvosa, o céu parecia coberto por um manto de nuvens. Dante estava sentado na soleira de sua casa, um casebre de madeira, abraçado aos joelhos. Fazia um frio intenso, e a casa, afastada da cidade, ficava em campo aberto, fazendo o vento se tornar ainda mais gélido. Haviam se passado alguns dias desde o evento na casa de Gavea, e o menino sentia o coração pesado. Riscava a terra do lado de fora com um graveto na mão, enquanto olhava o pai.
Nicolau cavava um buraco fundo no quintal da casa com uma pá enferrujada. Seus cabelos estavam molhados pela chuva intensa que caia com força sobre ele. A água escorria pelo seu rosto contorcido pela dor. Dante não sabia se aquela expressão era por causa do frio que gelava seus ossos, pela água da chuva batendo como pedradas em suas costas, ou pelo que havia acontecido. Também não conseguia saber se parte daquela água que escorria em seu rosto, no meio da água da chuva, poderiam ser lágrimas. O homem parou de cavar, e descansou, apoiando os braços sobre a pá. Sua roupa estava encharcada pela água e sua camisa ainda estava com uma grande mancha de sangue na altura do peito. Naquela região, o tecido estava rasgado, e mesmo na escuridão da noite, podia-se ver um corte enorme. O sangue escorria, mas ele parecia não ligar. Olhou para o saco de lixo que estava ao lado do buraco que havia acabado de cavar. Não tinha lixo algum lá dentro, estava apenas cobrindo algo. Dante sabia o que havia lá, mas não conseguia entender, e muito menos aceitar. Continuou abraçando seus joelhos.
Durante muito tempo o pai continuou imóvel, até finalmente criar forças para ir em direção ao saco. Tentou levantá-lo, mas se desequilibrou e escorregou na água do chão, e acabou por cair na lama, levando o plástico preto consigo, destampando o que estava embaixo dele. Então Dante pôde ver novamente.
O corpo de sua mãe deitado na lama, sendo fuzilado pela chuva. Estava nua, e sobre sua barriga estavam desenhadas uma série de formas que ele não entendia, feitas com o que parecia ser sangue. Seus olhos estavam arregalados, e em sua boca havia um sorriso estranhamente simpático, como se estivesse viva. Porém o falta de brilho nos seus olhos e a palidez de sua pele mostravam a realidade aterradora: estava morta já fazia algum tempo. Ainda assim, estranhamente, os olhos arregalados estavam olhando diretamente para Dante, sentado na soleira da casa, e aquele sorriso perturbador parecia querer reconfortá-lo. A criança sentiu um aperto no peito, e sua barriga gelou. Queria abraçar o corpo da mãe. Mas também queria fugir dele. Estava com medo, medo do que aquilo poderia representar. Uma única lágrima correu por seu rosto. No chão, desenhado na terra seca protegida pelo telhado, havia um boneco segurando um coração partido ao meio. Seu pai gritava, chorando. Solidão.

Dor. Dante acordou com um grito, o ombro queimando. O suor gelado escorria por seu corpo, e sentia dificuldade em respirar no ambiente fechado. Estava dentro de uma cabana minúscula e abandonada. O cheiro de mofo pairava no local. Levantou-se, e abriu a janela. Já era dia, e o vento fresco veio de encontro ao seu peito destampado, refrescando-o. Havia sonhado novamente. Odiava ter aqueles pesadelos, que acabavam por recordar coisas que ele já queria ter esquecido. Ainda sentia pontadas no ombro. A cicatriz estava negra, e a área ao redor dela parecia estar podre. Olhou para trás, e viu a figura da menina.
Dandara estava deitada na outra cama. Também estava encharcada de suor, e ardia em febre. Estava coberta por lençóis limpos, e sobre a sua cabeça repousava um pano úmido, que o jovem usava para tentar abaixar sua febre. Dante tirou o pano de sua testa e mergulhou em um balde d’água ao lado da cama, para logo em seguida torcê-lo e recolocá-lo sobre a testa da garota. Nos últimos dias havia se dedicado a cuidar dela. Nem ao menos se preocupava mais em encontrar Gavea. Sabia que o mesmo lhe acharia onde quer que estivesse.
- Não... Dói... Socorro... – dizia a estranha, delirando, enquanto ele passava um pano úmido por seu corpo.
Ele tinha de fazer tudo por ela. Tentava lhe dar água e alimento, mas Dandara não aceitava, virava o rosto inconscientemente, sem deixar que ele abrisse sua boca. Ela também não fazia necessidades, talvez pelo fato de não estar se nutrindo por quase dois dias. Apesar de tudo, ele limpava seu corpo, tirando o excesso do suor, para evitar que ela piorasse. Ficava um tanto quanto constrangido ao limpar as partes mais intimas da moça, o que era natural, mas conseguia conter seus instintos. Enquanto tentava mantê-la viva, Dante ficava cada vez pior. A cicatriz em seu ombro parecia estar matando-o aos poucos, mas ele simplesmente ignorava seu estado.
Batidas na porta. Havia alguém do lado de fora. Seria impossível que estivessem procurando pela garota em uma casa abandonada e caindo aos pedaços. Não havia motivos para visitas. Só podia ser Gavea, pensou. Caminhou lentamente até a porta, tentando não fazer barulho, somente por segurança. Olhou por um buraco que havia na porta de madeira.
Gavea usava um manto cinza de tecido liso, e carregava uma mochila nas costas. Por um momento, Dante não reconheceu o senhor com barba e cabelo curto. Havia se acostumado com a imagem que havia visto em seu sonho: um velho de cabelos longos e barba feita. Mas o que realmente havia deixado o garoto intrigado, havia sido outra coisa: Maria, a mulher que ele havia pedido para dar o recado para o ancião, estava acompanhando-o. Usava uma camisa branca de botões, uma calça jeans preta, e também carregava uma mochila. Por que ele a trouxera? Era muita irresponsabilidade. Abriu a porta.
- Há! Se não é o nosso jovem Dante! Como está garoto? – disse Gavea, com um grande sorriso, Por um momento, aquilo irritou o jovem.
- Ah... Olá Dante – disse Maria. Estava encolhida atrás do velho, como se tivesse medo. Parecia saber que sua presença era inconveniente.
- Por que a trouxe? Não sabe que é perigoso? – perguntou Dante. Seu olhar mostrava reprovação à decisão do velho. Mesmo fraco do jeito que estava, o jovem impunha medo.
- Hei... Esse não parece aquele garoto educado que conheci alguns anos atrás. Eu não queria trazê-la, pode acreditar, ela me obrigou a fazer isso – disse o senhor, olhando para Maria – ela estava preocupada demais para saber se você havia sobrevivido, e disse que só acreditaria vendo com os próprios olhos... – terminou ele, olhando para o chão e balançando a cabeça, ainda com um sorriso no rosto.
Maria enrubesceu e baixou a cabeça. Quando teve coragem de olhar para Dante, não conseguiu sustentar seu olhar.
- Desculpe-me... Fiquei preocupada e...
- Ok, ok... Não tem problema, entrem – disse o outro, cortando-a – por que demoraram tanto?
- Ah, a caminhada na estrada estava muito boa, paramos várias vezes para admirar a paisagem...
- Vocês vieram andando? Não acredito... – perguntou o garoto perplexo com as palavras do ancião – isso explica porque demoraram cinco dias para chegar.
- Eu também não acreditei quando ele disse que não viríamos de carro – disse a mulher, ainda um tanto tímida – mas sim, viemos andando.
- Eu precisava de uma caminhada... E achei que poderia encontrar você no caminho, afinal, deveria estar a pé também. Como chegou tão rápido?
- Eu subi no trem que traz mantimentos para a W-1025... – respondeu.
Gavea balançou a cabeça confirmando. Os dois viajantes entraram na casa abafada, e repousaram as mochilas na cama em que Dante dormia.
- Quem é essa menina? O que houve com ela? – perguntou o velho Gavea, aproximando-se da cama de Dandara e colocando a mão em sua testa – por Deus! Ela está ardendo em febre!
- Bem... Eu a encontrei no parque na cidade. Eu estava sentado, esperando por você, pois imaginei que seria mais fácil de você me achar se não estivesse escondido... Então teve uma confusão em uma universidade lá perto, e ela correu pra dentro do mato. Logo ouvi gritos, e quando fui ver o que estava acontecendo, ela estava tocando em um cachorro, paralisada. Então eu a tirei de perto do cão e trouxe-a pra cá... Estou tentando cuidar dela... Mas ela não melhora, está delirando e...
- Espere, espere... – interrompeu o ancião – um cachorro? Qual era a tonalidade do pêlo dele? O que aconteceu com ele depois do que você contou?
- O pêlo era preto – disse Dante – e depois ele simplesmente desapareceu como se fosse fumaça.
Gavea passava a mão pela barba, olhando a garota, em uma expressão pensativa.
- Entendo... Pelo que você contou, provavelmente, o que vocês encontraram foi o espírito Cuulum...
- Cuulum? – perguntaram Dante e Maria ao mesmo tempo.
- Sim... Ele é a força vital da natureza... Representa a vida em tudo que você vê: uma árvore, uma pedra, um riacho, o céu, e por ai vai. Normalmente, é um espírito inofensivo, a menos que interfira no meio dele. Isso porque quando os humanos constroem cidades, poluem o ar, os rios e cortam as árvores, eles estão agredindo também o Cuulum, tirando pouco a pouco sua vida. Ele se apresenta normalmente na forma de um lobo selvagem de pelagem negra, e pode estar em vários lugares ao mesmo tempo... Ele fica vigiando cada parte da natureza no planeta. E quanto mais preservada está a natureza ao seu redor, mais forte e maior ele é.
- O que nós vimos tinha o tamanho de um cão normal – observou o menino, se lembrando do episódio.
- Exatamente, – continuou o homem – ele estava fraco. Essa cidade é um ambiente completamente humanizado, é natural que estivesse próximo ao pouco que restou da natureza nesse local: as árvores e o lago. Normalmente, os humanos comuns iriam ignorá-lo... Essa garota que você salvou provavelmente é uma veter.
- Veter? – perguntou Dante.
- Bem... É meio complicado para eu explicar isso tudo pra você agora, está cansado... e temos que curar logo essa garota. O espírito provavelmente sugou a energia dela para tentar se restabelecer, mas acabou deixando-a a beira da morte.
Após dizer isso, Gavea foi em direção a sua mochila, e abriu um dos bolsos. Estava cheio de pedaços de madeira com desenhos e cores diferentes: talismãs. Ele remexeu as mãos dentro do compartimento, até finalmente achar o que procurava. Era um pedaço de madeira branco, com um desenho que parecia ser o Sol. Ele se voltou na direção da menina, e colocou o talismã em seu peito.
- O que ele está fazendo? – perguntou Maria, ainda mais assustada.
- Ele vai curá-la... – disse Dante, sem tirar os olhos do procedimento.
Caüm vadat maiu, maiu seme extyrminabur – recitou o velho, os olhos fixos na garota, as veias da têmpora saltadas.
O talismã queimou a roupa da garota, na região em que estava repousado, como se fosse papel, deixando apenas cinzas. Ela começou a tremer, e todas suas veias se destacaram na pele. Ela gritava, apesar de inconsciente, e os olhos abriam e se fechavam rapidamente.
U kés corpi famaris! – recitou novamente o ancião, agora concentrado no talismã.
Silencio. A garota havia parado de tremer, e agora repousava em silêncio. Sua febre havia abaixado instantaneamente, e não estava mais pálida. O talismã em seu peito, antes branco, agora estava negro e quente. Gavea o tirou do peito da garota, e jogou-o no chão. Ao bater sobre a superfície dura, ele se desfragmentou em cinzas. O velho respirava com dificuldade. Provavelmente aquele ritual havia deixado-o exausto.
Dante correu para beirada da cama, apoiando-se sobre a garota, colocando a mão em seu rosto. Pareceu feliz por alguns momentos, antes de baixar o braço rapidamente, aparentemente devido a uma pontada de dor em sua cicatriz.
- Ha... Parece que conseguimos... Garoto... O que aconteceu em seu ombro? – perguntou Gavea, olhando desconfiado para a mancha negra no corte.
- Isso...? Foi quando eu matei o possessun do restaurante dela. Eu só consegui usar o talismã quando o possessun já estava em cima de mim, e ele acabou tocando meu ombro... Mas não é nada grave, não se preocupe... – respondeu o menino. Parecia que só de se lembrar do ferimento, ele acabava sentindo ainda mais dor. Colocou a mão sobre a cicatriz negra e podre.
Maria pareceu se sentir culpada. Afinal, aquilo tinha acontecido graças a ela, se não estivesse lá, o menino poderia ter fugido em vez de tentar ganhar tempo. Sentou-se na cama de Dante, e ficou quieta. Já Gavea, levantou-se e segurou o garoto com força, olhando atentamente o ombro dele.
Apenas tocou? Você é burro?! Isso não é um ferimento, você só conseguiu matar parte do possessun! Tem uma parte dele que está viva, aí, dentro do seu ombro! Fico imaginando como aguentou quase uma semana com isso dentro de você! – disse o velho, não acreditando no que via. Normalmente, o monstro teria crescido e se espalhado até dominar todo corpo, pensou ele. Afinal, o que era aquele garoto?
Talvez por sorte, talvez por azar, mas aconteceu naquele momento. Assim que Gavea se calou, Dante ficou paralisado, os olhos vidrados. A cicatriz em seu ombro ficou mais escura e pareceu dobrar de tamanho. Ele ouvia um zumbido dentro de sua cabeça, e sua visão escureceu. Apesar de ter perdido a consciência, o corpo do menino ainda se movia, por uma força invisível. Uma onda de energia percorreu o corpo do garoto, lançando Gavea em direção a cama, ao lado de Maria.
- Merda...
Gavea vasculhava novamente a mochila, nervoso, procurando outro talismã. Os olhos do garoto estavam completamente negros, como se estivessem vazios, e ele emitiu um uivo, talvez de dor, talvez de fúria. Virou-se na direção do velho, e sibilou, com uma voz fria e rascante.
- Umonis naiurds... Une evet!
Dante exibia um sorriso no mínimo diabólico, e de sua boca saía uma fumaça negra: a verdadeira forma do monstro. O corpo do menino começou a caminhar calmamente na direção de Gavea. O homem parecia finalmente ter achado o talismã, e apontou-o para o ombro do garoto.
- Você que irá desaparecer, desgraçado! Kad iferum une evet! – recitou, momentos antes da fera em forma de homem saltar sobre ele. O ombro do jovem explodiu no meio do salto, lançando-o contra a parede da estrutura frágil da velha cabana, criando uma rachadura.
Gavea se aproximou, cauteloso, da figura pálida. Não sabia se estava vivo. Matar um possessun, normalmente também matava o hospedeiro. O ombro dele estava com um buraco enorme onde o tiro do talismã havia acertado. Porém não havia mais sinal de podridão nem da ferida escura. Uma fumaça aparentemente inofensiva saia do ferimento, como se algo tivesse queimado lá dentro.
Aparentemente. Como se tivesse vida, a fumaça ficou densa rapidamente, e avançou sobre o homem desprevenido. Gavea por puro reflexo cantou o refrão novamente e disparou. Outra explosão. O cheiro de queimado impregnou o ar, e os vidros das janelas vibraram. Finalmente a criatura havia morrido.
- Dante? – perguntou o senhor. Estava coberto de fuligem.
Maria estava encolhida na cama, coberta com os lençóis, as lágrimas rolando pelo rosto. Gavea se levantou e foi na direção do corpo. Tomou o pulso dele. Estava fraco, mas vivo. Realmente, um garoto impressionante, não havia morrido em uma semana inteira com aquilo dentro do corpo, levou todo aquele dano para matar o monstro, e mesmo assim estava vivo. Pegou o jovem no colo e carregou-o com certa dificuldade em direção a cama.
- Maria, deixe-me colocá-lo ai, ele precisa de cuidados urgentes, mas ainda pode ser salvo.
- T-tudo bem, posso a-ajudar em alguma coisa? – perguntou ela, soluçando, levantando-se da cama.
- Apenas cuide da garota enquanto eu cuido dele. Vão se passar alguns dias até que ele esteja bem. – disse ele enquanto colocava o menino na cama.
Gavea começou a procurar algo na mochila novamente, e tirou um tubo de uma espécie de pasta esverdeada. Começou a cobrir o ferimento do garoto com ela, mas Dante segurou seu punho. O garoto estava acordado, e ainda tinha forças para se mover. Era impossível, ele só podia ser um monstro, pensou o ancião.
- Gavea... Nem pense em desaparecer... Precisamos resolver essa bagunça... – disse o menino, a voz fraca. Os olhos estavam entreabertos.
- Apenas repouse garoto... Não se preocupe, irei tratar de você... – disse o senhor, tirando a mão de Dante de seu pulso e repousando-a na cama.
O menino esboçou um sorriso, e disse uma ultima frase antes de adormecer.
- Cuide dela...
Gavea sorriu.